Só para contrariar


José Gomes André,

Bem sei que não está na moda, não é moderno, nem progressista, nem futurista, e que se calhar até é coisa de negativista, maledicente, retrógrado e provinciano, mas arrisco na mesma: confesso que gosto de Manuela Ferreira Leite.

Gosto da hipótese de ter uma chefe de governo que está mais preocupada com a situação económica, política e social do país do que com estratégias de marketing eleitoral. Gosto de uma pessoa que, se quiser, pode viver de outra coisa que não a política. Gosto de uma pessoa séria. Gosto de uma pessoa que não dá prioridade à "imagem" e às "técnicas de comunicação". Gosto de uma pessoa que muda de ideias se achar que as circunstâncias o justificam. Gosto de uma pessoa que tem idade suficiente para não precisar dos jogos da política para se afirmar, e que pode realmente operar as reformas necessárias sem ter de pensar em reeleições.

E arrisco dizer ainda mais: gosto do programa do PSD. Gosto que se peça mais sociedade e menos Estado. Gosto que se queira reflectir sobre o modelo da segurança social. Gosto que se defina como prioridade o apoio às pequenas e médias empresas. Gosto que não se desvalorize por preconceito a iniciativa privada. Gosto que se fale de investimento de proximidade e de apoio às comunidades locais. Gosto que se promova uma cultura de rigor, disciplina e mérito na educação. Gosto que se suspendam os grandes investimentos públicos se as circunstâncias o recomendarem.

Não sei se é risível ou patético o que acabei de escrever, mas garanto-vos que é sincero. Não chega? Para mim, é quanto basta.

26 comentários em “Só para contrariar”

  1. Tal como você, também gosto de muitas das coisas que citou. Agora o que já não acredito é que Ferreira Leite seja aquilo que você diz e muito menos que fosse fazer, se fosse eleita, o que espero não venha acontecer, aquilo que afirma.

  2. Vá lá, não sejamos mauzinhos. Parece-me óbvio que Sócrates tem provado poder sobreviver fora da política. Por exemplo, sendo delegado comercial de determinadas empresas.

  3. Não está só.
    Pelo contrário, está muito (e bem) acompanhado. Como se verá no próximo dia 27.
    Deixemos a poeira assentar.

  4. Não é de todo risível
    nem tão pouco patético,
    não sendo desprezível
    esse pensamento ético.

    A mais pura sensatez
    é apanágio de seriedade,
    há gente de rosada tez
    vivendo mal com a verdade.

    Um Governo perdido
    com tanta incerteza,
    tem o povo iludido
    com “chica-espeteza”.

    É, de facto, premonitório
    a falta de autenticidade,
    este regime persecutório
    sofre de falsa veracidade.

    O truque de contorcionismo
    de quem gosta de enganar,
    é puro e desprezível cinismo
    na destreza de desgovernar.

  5. Gosto de boa parte do que disseste, José. Só tenho dúvidas sobre o que deixaste por dizer. Até talvez não fosse muito importante, mas aquilo do Preto e da Helena qualquer-coisa, do falso candidato Alberto João e do episódio da Madeira, etc., são rótulos que deixam a desejar. E acabo por me ver a olhar para as curvas e contra-curvas de uma linha recta…

    Contudo – por falar em recta – fico muito satisfeito por verificar o modo rectilíneo como expões as tuas convicções. Porque rectidão e convicções são duas características que têm casado pouco e quase sempre mal, José.

    1. Qual falso candidato, qual carapuça!
      E o Sócrates? Não é candidato a deputado e candidato a primeiro-ministro?
      E a Drª Manuela Ferreira Leite? Não é candidata a deputada e candidata a primeira-ministra?
      Quando é que o combate político, neste País, passará a ser feito na base da honestidade intelectual?

      1. Eu também ouvi esse disparate. O cargo de primeiro-ministro vai a votos, ou emana da Assembleia da República? O líder partidário vencedor não tem capacidade até para apontar um primeiro-ministro que não ele próprio?

        Olhe, por exemplo, os britânicos: nos anos 90, o então líder da maioria Chris Patten designou John Major para primeiro-ministro. Porquê? Porque os governos não são eleitos pelos votos.

        Para retórica básica chegaram-me alguns debates, meu caro.

        1. E o cargo de presidente do Governo Regional da Madeira vai a votos ou emana do partido mais votado para a Assembleia Regional?
          Chiça!!!

          1. É, eu também ouvi esse disparate. Chamo-lhe disparate porque o próprio Alberto João, assim que foi listado, correu a declarar que jamais será deputado. Capice?
            Chiça para si também.

            1. Gostaria de dispor de armas iguais a si (que tem a faculdade de cortar-me o pio…) para o poder mandar, muito justamente, a um sítio que me abstenho de referir.
              Ficamos, portanto, por aqui.

            2. Ah! Antes que me esqueça: não posso (nem queria poder) cortar-lhe o pio. Tem, pois, a faculdade de usar a artilharia toda para dizer aqui tudo o que lhe vai na alma.
              Mas corto-lhe o texto, sim, se ultrapassar as marcas da decência. Não é por minha causa, não, que já ganhei estaleca. É por causa dos nossos amigos comentadores e visitantes, gente muito decente que temos o costume de respeitar.

        2. Quanto à sua frase “Para retórica básica chegaram-me alguns debates”, só tenho a perguntar-lhe:
          V. conhece-me? Ou apenas tem a pretensão de que os comentadores do blogue são todos analfabetos e pobres de espírito, a quem mais não resta do que vergar-se ante a sabedoria dos autores dos “posts”

          1. Essa ladainha já é velha, meu caro. O livro de reclamações continua em branco. Ficou ressentido? Pois olhe que não tem razão para isso: primeiro, porque não trato mal os comentadores, embora alguns sejam muito sensíveis; depois, porque a retórica básica não é sua, visto que eu ouvi o mesmo que V. reproduziu.

    2. Como sabes, já aqui expus o que considero serem aspectos negativos do PSD, nomeadamente na composição das listas. O episódio Madeira também merece críticas, é claro: fazer de AJJ exemplo parece-me coisa duvidosa. Mas quis dar aqui o contraditório num momento em que toda a gente diz mal de MFL e do PSD.

      Já agora: agradeço muito as tuas palavras sobre rectidão e convicção. Faço por isso e fico muito contente por o teres referido. Um abraço!

  6. Porque é que defender uma causa há-de ser risível ou patético? Ora essa, em cada um a opinião é soberana.
    Por esse prisma, qualquer um dos seus co-bloggers será então também risível e patético, coisa que, quando discordamos, seríamos de facto tentados a acreditar.
    Mais que boas ou más, as opiniões são límpidas ou obscuras, bem fundamentadas ou mal, coerentes ou atrapalhadas, e, sobretudo, honestas ou desonestas.
    – Deu a sua e mostrou as cartas todas, não foi?
    Parabéns.
    E parabéns também por ter contribuído aqui no DO para o falso unanimismo que por aí impera (visível, por exemplo, nas interpretações televisivas dos debates).
    Quanto ao que diz no seu post , escusado será dizer-lhe que concordo totalmente consigo.

    1. Obrigado pelo comentário e pelas palavras amáveis. Quanto à questão do unanimismo: é infelizmente comum na TV, felizmente raro aqui no “delito” e na blogosfera. Foi uma das coisas boas que a bloga trouxe ao debate público, creio: a abertura para se confrontarem no mesmo espaço ideias antagónicas. Um abraço!

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