Só podia ter acabado como acabou


Patrícia Reis,

Subitamente, em 1974, faz agora 35 anos, Lisboa transformou-se na capital da Europa. Enviados especiais de todas as partes do globo acorreram, em fluxos torrenciais, à cidade onde os cravos floriam nas espingardas. E Portugal passou a ser notícia – não durante dias ou semanas, mas durante meses, até a chama revolucionária se esgotar em Novembro de 1975. Figuras como Mário Soares, Álvaro Cunhal, António de Spínola, Vasco Gonçalves, Costa Gomes e Otelo Saraiva de Carvalho compareciam nas capas de jornais e revistas, sob títulos dos mais diversos idiomas. Havia os discípulos de Maquiavel que, como o secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger, apostavam que Portugal seria a “vacina da Europa”, espécie de laboratório onde se experimentava a revolução socialista destinada a falhar e a constituir um exemplo à escala universal. E havia os outros, os que sonhavam que todas as utopias seriam possíveis no auge da Guerra Fria neste canto mais ocidental da Europa. Intelectuais de todos os matizes – de Jean-Paul Sartre a Glauber Rocha – acorreram ao país que adormecera em plena ditadura caetanista e despertara já sob o mito da “sociedade sem classes”. Sérgio Godinho, numa canção com letra sábia, advertia: “Só quer a vida cheia quem teve a vida parada.” Mas ninguém o escutou, entre as palavras de ordem entoadas nos comícios de rua. Os repórteres estrangeiros que afluiram a Lisboa deixavam-se fascinar pelas figuras mais iconográficas do golpe revolucionário – do monóculo prussiano de Spínola até à cabeleira branca de Álvaro Cunhal com o seu perfil de príncipe florentino. E choviam hipérboles: André Pautard, por exemplo, comparava na revista L’Express o 25 de Abril à libertação de Paris somada ao Maio de 68. Raymond Cartier, da Paris-Match, jantava em casa de Mário Soares, ao Campo Grande, e trazia de lá uma indigestão de novidades. O brasileiro Berilo Dantas, enviado da revista O Cruzeiro, conversava com Mestre Chico, durante 30 anos barbeiro de Spínola, e revelava que o general almoçava todos os dias no mesmo hotel de Lisboa.

Um homem que não dispensava as rotinas surgia ao leme da revolução: quem soubesse decifrar sinais perceberia já então que tudo só poderia acabar como acabou.

 

Publicado no DN

15 comentários em “Só podia ter acabado como acabou”

  1. Pedro:

    Parabens, a análise está brilhante e sem nenhum exagero.
    E se alguém, na altura, tivesse percebido, como dizes os “sinais”, se calhar, não tinhamos chegado, ao que chegámos, mas enfim cada povo tem o que merece, e hoje os “chicos espertos” pensam que tudo é deles e podem fazer o que querem.
    Ai os sinais de 1974…

    1. Nessa altura era difícil decifrar os sinais, Carlos. Mas lendo aquelas reportagens 35 anos depois, como agora fiz, percebe-se que todas elas nos forneciam, à distância, pistas para perceber muitos dos capítulos seguintes.

  2. Para quem passou por tudo isto é a memória mais concisa, mas também melhor descrita, que até agora li.
    Quanto à conclusão, e porque prognósticos só no fim do jogo, mais uma vez se compreende melhor a frase ” a vida faz-se caminhando”.

  3. Excelente caro Pedro, muito oportuna a citação de Sérgio Godinho, “só quer a vida cheia quem teve a vida parada”. Vista à esta distancia a frase ainda faz mais sentido….

  4. Refresque-me a memória.

    Qual é a intenção deste texto? Porque motivo resolveu salientar esta “perspectiva” e não outra(s)?

    É curioso. Fala do 25 de Abril com uma mestria de objectivismo sintático que quase mascara a desilusão evidente com que encara o período, o seu take sobre o “tema”, por assim dizer; como se a sua leitura do acontecimento não estivesse de algum modo relacionada com uma agenda de intervenção na memória colectiva, algo que, infalivelmente, todos possuímos, mesmo quando nos refugiamos numa aparente neutralidade narrativa.

    Até podemos convencer-nos de que estamos meramente a falar de jornalismo, mediatismo, etc, mas… Estaremos de facto? Ou estaremos a fazer política?

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *