Inesperadamente, Sócrates quis esfriar a polémica fora do PS e abriu a polémica dentro do partido: impediu as candidaturas duplas às legislativas e às autárquicas, estragou o sonho de alguns candidatos socialistas e salvou os seus pares já com lugar assegurado no Parlamento Europeu (PE) e que levam em frente as suas candidaturas a autarcas.
Não admira que alguns candidatos duplos do PS estejam a protestar e que outros estejam felizes. Entre os que não cabem em si de contentes estão, por exemplo, Elisa Ferreira, candidata ao Porto, e Ana Gomes, candidata a Sintra, ambas já com assento garantido no PE: a primeira nem encontra palavras para descrever a sua satisfação; a segunda vai dizendo que concorda com a decisão para pôr cobro aos dichotes lançados pela oposição.
Ana Gomes até diz mais: «Neste momento, sou candidata apenas à câmara municipal e, se for eleita, é na câmara que fico; se não for eleita, é no PE que fico em exclusividade». Claro que sim: ela não é também candidata às legislativas, os outros dois cargos à escolha são exercidos em exclusividade e um deles já está no papo. Mas não é bem como ela diz: perder a presidência da câmara de Sintra não é perder a câmara, só que Ana Gomes está visto que desistirá de ser vereadora para ser eurodeputada.
Conclusão: Sócrates acaba com os candidatos duplos, mas não tem mão nos candidatos ambíguos. A única vantagem que retira é a de todos eles lhe mostrarem os dentes. Uns a sorrir, outros a rosnar.

Ana Gomes, que já é eurodeputada, devia renunciar imediatamente à candidatura em Sintra, sob pena de perder qualquer autoridade moral nesta e noutras matérias. Quem tanto gosta de apregoar grandes princípios morais deve ser irrepreensível nestas questões.
Só que ela não mostra ser irrepreensível. E tantos outros também não. E os cidadãos cada vez mais divorciados da política.