Já fui estúpida e inteligente, prepotente e submissa, ignorante e culta, beta e pirosa, forreta e perdulária, expansiva e introspectiva, calorosa e gélida, espontânea e calculista, ingénua e perspicaz, sortuda e azarada, competente e incompetente, corajosa e cobarde, justa e injusta, forte e fraca, discreta e indiscreta, esquerdista e reaccionária, potencial assassina, anjo vingador. E podia continuar, na certeza de que tudo o que deste teor acrescentasse à lista, seria verdadeiro.
Basta fazer este género de exercício para facilmente se provar que a verdade, de facto, é muito relativa. Depende dos olhos de quem nos avalia, das suas e nossas circunstâncias, de momentos de inspiração, da nossa arte de conquistar, da nossa inépcia, de erros de interpretação e até do corpo. De como se apresenta esgotado ou em forma, atento ou distraído.
A verdade, que não existe em absoluto, decompõe-se nestas experiências que temos com ela. E a beleza de tudo isto está nesta arbitrariedade, que nos permite, à medida que os anos passam, saber cada vez melhor relativizar-nos, rir-nos de nós próprios e das certezas que justa ou injustamente despertámos nos outros.