Não entro em histerias. Não faço acusações sem provas inequívocas. Não elejo alvos para desferir ataques pessoais ou fazer auto promoção. Cultivo o rigor e a isenção.
Estas são as regras que utilizo enquanto jornalista mas, obviamente, que não são aplicáveis nos blogs onde escrevo, porque nestes espaços não me sinto vinculado a essas regras. O blog é um espaço de opinião. A que me sinto com direito como cidadão, que não está desligado da vida social e política do país.
Vou tentar, porém, analisar – na pele de jornalista – o caso do momento. Nessa perspectiva, penso que ainda não é o momento de tirar conclusões do caso MMG.
Aguardo serenamente pelas 20 horas. Se a TVI divulgar INTEGRALMENTE as investigações feitas pela equipa de MMG, fico com a (quase) certeza de que não houve mãozinha do governo. Se, pelo contrário, optar por esconder as investigações, fico com uma dúvida: atendendo a que a decisão foi tomada em Espanha, será que as peças revelariam alguma coisa inconveniente para o governo de Zapatero e as suas relações com o PS? Penso que não. É já conhecido o corte de relações entre a PRISA e o PSOE, pelo que alguma ligação do caso com acontecimentos em Espanha não estará relacionada com quem está actualmente no governo. Para bom entendedor…
Vejamos então a hipótese de a investigação ter encontrado mais provas contra Sócrates e aí, sim, pode levantar-se a possibilidade de ter havido intervenção do governo. Fico, no entanto, sem encontrar respostas para as razões que terão levado o governo a manobrar no sentido de suspender o Jornal de MMG. E aí entra outra hipótese, que só MMG pode ajudar a deslindar: que razões a levaram a dar uma entrevista ao “Público” no dia em que foi conhecida a suspensão do seu jornal? Por que razão lembrou, nessa entrevista, que “seriam estúpidos” se acabassem com o Jornal dela? E, ,já agora, seria interessante que ela desvendasse as conclusões a que chegou porque, se não o fizer, é legítimo levantar a hipótese de a peça não existir, ou não trazer nada de novo.
Não creio que a TVI deixe de divulgar a peça. A razão é simples. Apesar de demissionária, a direcção de informação continua a exercer funções, pelo que só não divulgará a investigação se não quiser. E se a opção for não divulgar, a solidariedade manifestada pela direcção de informação com MMG terá de ser posta em causa. Ou, então, a direcção de informação abandona de imediato as suas funções e denuncia que foi proibida de exibir a investigação e voltamos ao princípio.
Finalmente, se a investigação for divulgada, conclui-se que o objectivo da PRISA foi apenas afastar – não despedir – MMG (tem toda a legitimidade para o fazer) e, eventualmente, alguns dos elementos do “inner circle” de José Eduardo Moniz. O que também é legítimo. Normal na Administração Pública e nas empresas.
Este post é um mero exercício especulativo. Mas é com todos os pressupostos colocados em cima da mesa que um jornalista deve trabalhar. Depois deve comparar informações, confrontar fontes, pesquisar, ligar as pontas e tentar tirar as conclusões. Só nessa altura estará em condições de produzir a notícia.
Dir-me-ão que o jornalismo, hoje em dia, não se compadece com este tipo de jornalismo, por ser muito moroso. É uma verdade apenas parcial. Trabalhei em Inglaterra e nos Estados Unidos e lá é frequente um jornal destacar um ou dois jornalistas para, durante um ano, investigarem determinado assunto. Por aqui, há mais preocupação em vender jornais e andar atrás do mediatismo das notícias, do que em ser rigoroso. O caso Freeport surgiu em 2005. Durante quatro anos, ninguém se interessou pelo assunto. Foi um tempo perdido, que poderia ter sido muito bem aproveitado para fazer investigação. Agora, para recuperar esse tempo, fazem-se notícias à pressa.
Claro que lá fora também existe este tipo de jornalismo. Como bem demonstram os casos Aznar/PP em relação ao 11 de Março (rapidamente desmascarado) ou a tragicomédia da invasão do Iraque. No entanto, se queremos jornalismo sério, em Portugal ou em qualquer parte do mundo, é obrigatório que a comunicação social invista na investigação. Sem deixar cair determinados casos no esquecimento e ressuscitá-los quando dá mais jeito a interesses que nada têm a ver com jornalismo. É que, ao contrário do que muitos defendem, nem sempre as notícias mais importantes são as que se relacionam com o presente. São, sim, aquelas que influenciam o nosso futuro.

“Se a TVI divulgar INTEGRALMENTE as investigações feitas pela equipa de MMG, fico com a (quase) certeza de que não houve mãozinha do governo.”
mas tambem fica com a (quase) certeza que essa será a ultima vez que a TVI pegara no tema! Goste-se ou não, o Jornalismo de Investigação, que é praticamente existente na TVI, morreu!! o sec. XXI começa com grandes atentados à liberdade de expressão em Portugal ! investigar o poder esta se a tornar proibido, O Estado esta a utilizar todo o seu poder para manter o jornalismo praticado em portugal em absoluta submissão…
Goste-se ou não, foi silenciado algo de incomodo para o Governo!
É certo. Mas V. voltou a escrever horrivelmente. E não precisa de abusar da ‘caixa alta’, que aqui ninguém é surdo.
Convém sempre não esquecer que este PS tem abusado de práticas muito semelhantes a outras em que o PS na oposição fazia um sururu desgraçado.
“Mas V. voltou a escrever horrivelmente.”
eu sei que escrevo horrivelmente, quando alguem me diz que escrevo bem é que me admiro…
mas essa historia de que se a TVI exibir a peça FreePort é porque não houve atentado à liberdade de imprensa é que é de loucos! o FreePort, seja qual for a natureza da peça, vá ou não para o ar, morreu para a TVI , não por criterios jornalisticos mas sim de natureza politica
João:
Neste caso da caixa alta, assumo as minhas responsabilidades e ilibo o tric. Na verdade ele transcreveu a minha frase. Eu escrevi aquilo em caixa alta, porque alguns anónimos e heterónimos costumam treler o que escrevo.
Explicado, Carlos. Fica por aquelas que o Tric não ouviu antes.
Caro Carlos, só li o post até meio o que já diz muito sobre este caso. A campanha acaba hoje às 20h.
Senhor Carlos: Deixe-me dizer-lhe que o Sr. me parece uma pessoa extremamente simpática. Isto em si, não quer dizer muito, porque eu, à partida, considero todos os adultos extremamente simpáticos, excepto alguns. Mas o Sr. parece-me MESMO simpático e, vá lá, até um bocadinho da minha idade, lá por dentro, às vezes, isto sem o querer ofender a si, claro. Digo isto, porque o Senhor, apesar de ser jornalista e tudo, guardou dentro de si aquele bocadinho de naifeté (não sei muito bem o que é isto, é uma coisa que diz um amigo do meu avô e que acho que tem a ver com pastelaria) que lhe permite admitir a possibilidade de controlar coisas que à partida não são controláveis. Eu, por exemplo, acredito que consigo fazer voar aviões de LEGO; o Sr. acredita que consegue ter a certeza se determinada poeça jornalística será transmitida na íntegra ou não. Vamos perguntar a quem? Só se for à MMG. E ela diz? Hum. Eu, se fosse a ela, não dizia.
O Sr. gosta de arroz doce?
Gostei das palavras de MMG:
ENTREVISTA ANTES DO FIM DO JORNAL NACIONAL…
Manuela Moura Guedes: “Não sou uma alforreca”
;))
“Cultivo o rigor e a isenção”.
Olhe que a hora das anedotas costuma ser depois do “prime time”…
Ó Pinto, você cada vez que sai da casca para cacarejar só diz idiotices ou lança insultos. Assim nunca chegará a frango, quanto mais a galo!
É inegável que os comentadores são cada vez mais bem acolhidos por aqui.
São sempre bem acolhidos, desde que sejam educados e não façam acusações a coberto de anonimato ou de heterónimos. Gosto de gente com coluna vertebral, não suporto cobardes.
Gostaria de lhe responder no mesmo tom, mas é claro que dispomos de armas desiguais… Fique, então, com a sua enorme coragem, que eu tenho de contentar-me com a minha cobardia.
Pois não. Não é uma alforreca.
È pior que isso…
Muito pior!
Carlos, li e gostei do seu texto. Ponderado e rigoroso. Coloca questões e procura analisa-las. E acima de tudo defende o mesmo jornalismo que eu defendo, rigoroso, factual, sério e não opinativo.
Abraço.
“rigoroso, factual, sério e não opinativo”
Não lhe fica bem vir para aqui com piadas dessas.
Sr. Nuno Costa, fui ao seu blogue e fiquei a perguntar-me o que diabo terá V. contra a juventude no jornalismo… Ou será contra as mulheres bonitas?
Felizmente há jornalistas que gostam do rigor e o colocam acima das suas opções ideológicas, Nuno. Parece-me é que somos todos velhotes.
Para ser “sério”, teria de incluir a seguinte pergunta e investigar:
Se o Jornal Nacional esteve de “férias” 1 mês ou mais, porque é que, só na véspera de entrada em emissão, é comunicado que é cancelado?
Tiveram todos de férias foi? Ninguém programa ou trabalha durante um mês na TVI? As grelhas por acaso não são feitas no período estival? Sem entrar em suspeições, a verdade é que a história está muito mal contada.
Cumprimentos
Desculpe, mas parece-me que estará um bocado desactualizado em relação à informação sobre este caso.
Essa questão que coloca é abslutamente irrelevante para o que está em causa. Não se trata de uma questão de timing…