A vida de Tâmara parece uma sucessão afunilada de becos, cada vez com menos saídas: entregue a uma instituição aos quatro anos, pai preso e depois sem-abrigo, abandonada pela mãe, alguns fins-de-semana com uma tia e uma avó.
Aos 15 anos, Tâmara foge e procura o pai. Prefere pernoitar no prédio devoluto, sem água nem electricidade, onde este fica com a namorada – pouco mais velha do que ela – do que voltar para a instituição. E é nesse beco final, o Beco da Galheta, que Tâmara morre carbonizada na noite mais fria do ano.
Não se passa isto na Inglaterra de Dickens mas no centro de Lisboa, ontem. Explica a excelente reportagem do DN que o Tribunal de Menores confiara Tâmara ao Instituto Conde de Agrolongo, na Travessa do Possolo, em Campo de Ourique. Tâmara queria ser educadora de infância, conta o pai, mas preferiu ficar quase ao relento, no meio do lixo, do que voltar para o colégio onde seria maltratada pelas alunas mais velhas.
Não sei o que pensa o Tribunal de Menores fazer. Mas eu, cidadã, contribuinte, bocadinho deste Estado que assumiu a responsabilidade de criar a Tâmara, quero saber como foram os 11 anos que ela passou nessa escola. Quero saber porque é que Tâmara preferiu o Beco da Galheta. Quero saber o que se passa no Instituto Conde de Agrolongo. E depressa.

Somos dois, Cristina. Venham mais que queiram saber também.
Eu também gostava de saber , Cristina,o grau de responsabilidade imputável aos técnicos de reinserção social que emitem pareceres em casos semelhantes. Indiferentes ao interesse das crianças, refugiam-se na sapiência dos seus doutos pareceres, esculpidos em teorias coladas a cuspo em compêndios que lhes serviram de guia na sua formação em Universidades de vão de escada.
Responsabilizado deve ser o Estado, em nome da Administração pública. Tanto quanto tenho percebido, os poucos quadros superiores não andam no terreno. São os subalternos que avançam, investigam e emitem os pareceres. Quase todos jovens recém-licenciados, provenientes muitas vezes de universidades e cursos porventura já extintos, sim.
Totalmente de acordo, João!
Muito bem. Faço minhas as tuas palavras.
Esta história é impressionante, Cristina.
E já agora: a reportagem da Kátia Catulo é de facto muito boa.
É a melhor dos diários, Pedro. Espero que a Cátia nos dê mais notícias sobre este caso.
Mas agora não ouço as vozes que ouvi quando foi do terrível caso do travesti que foi violentamnete agredido e atirado a vítima para um fosso, onde acabou por morrer.
Não ouço as vozes a lamentar esta morte, a pedir justiça, editorais nos jornais, reportagens na TV, movimentos de cidadãos.
ESta menina, que menina era, estava depositada desde os 4 anos. E seja o que foi que se passou, uma coisa é certa, a vida desta menina foi uma infelicidade.
Um país que trata assim as crianças, que deixa que os seus velhos estejam desprotegidos, que não sabe cuidar dos seus, devia ter vergonha.
Maria Teresa Goulão
Conheci bem a Tamára (é assim que se escreve) bem como outras raparigas do colégio. Nunca me constou que as raparigas mais velhas a mal tratassem, muito pelo contrário, sempre a tentaram convencer a estudar e a levavam a passear, aos escuteiros aos fins de semana e a organizar-se com a medicação que tomava. Não posso garantir, mas se alguma situação menos agradável se passou com as raparigas mais velhas, não passou de situações mais ou menos normais de crianças daquela idade de gozo ou troças menos simpáticas.
É possível identificar-se? Obrigada
Se é assim que se escreve, escreve-se mal. Para essa pronúncia – que não discuto ser a verdadeira – o acento não deve existir. Tamara é quanto basta.
Subscrevo este seu pedido Cara Cristina .. até porque ainda fiquei mais desconfiada agora que li o testemunho do anónimo.
Tem razão em relação à forma de escrever, pois será, quanto muito, Tamara. Quanto às desconfianças, não estou em condições de resolver nada, nem tenho nenhum interesse específico em defender a instituição, apenas descrevi um pouco do que sei sobre o que se passa por lá. Achar que nada acontece entre as miúdas é um pensamento irrealista, até nos melhores colégios existem casos de “buling” (como gostam de chamar hoje em dia), logo considero que as troças que elas contam não eram nada de extraordinário considerando um panorama normal, quanto mais se considerar que estamos a falar de um colégio com algumas 50 ou mais raparigas com problemas sociais.
Em relação à minha identificação vou continuar anónimo e peço desculpa por isso, mas com tanto jornalista de volta deste caso, não quero ter ninguém à perna desta forma; se for necessário algum dia contribuir para esta história oficialmente, assim o farei se for chamado. A minha intenção foi apenas acrescentar um ponto de vista (incompleto e apenas baseado no que as miúdas contam) na vossa discussão preocupada. Cumprimentos.
O mais fácil é realmente escrever e procurar “culpados”.Já alguém se deu ao trabalho de saber quantas e em que condições instituições como esta existem no país?
Será que as pessoas pensam que estas instituições são prisões ou as antigas casas de correcção?A Tamara era uma grande menina e uma boa escuteira.Faltou o amor do pai e morreu em busca dele.Que descanse em paz.
Eu espero que, de facto, estas instituições não sejam prisões nem antigas casas de correcção, mas gostava de ter a certeza. É uma dúvida legítima, levantada pelo depoimento do pai de Tamara. Gostava de acreditar naturalmente na bondade das intituições, mas diz-me a experiência que isso seria tolo. Nem vejo razão para a indignação do Anónimo por querermos saber mais. Para a Tamara descansar em paz nós não podemos descansar tão depressa à sombra do irremediável. É que, como diz, há lá mais crianças…
Só para esclarecer, eu escrevi os dois primeiros comments anónimos e o terceiro é de outra pessoa. Se voltar a comentar, assino com neste mesmo comentário, com um “X”
http://www.correiomanha.pt/Enviar.aspx?c hannelid=00000009-0000-0000-0000-0000000 00009&contentid=9BBD7591-C664-4C5B-A8FB-31828D 29FE3D
Neste link do Correio da Manhã está a história que conheço e fui acompanhando, penso que seja a verdadeira…