Tardes de Salvador


Leonor Barros,

 

Uma caipirinha com uma carne de sol na Cantina da Lua, longe de ser tranquila, vertiginosa e sensual como o movimento de transeuntes. Soteropolitanos e gringos que se deslocavam num vaivém frenético e colorido, ladeiras acima e abaixo até ao Largo do Pelourinho, iluminado pela Igreja do Rosário dos Pretos e a Fundação-Casa Jorge Amado, azuis ambas, ponto obrigatório de qualquer visita à cidade do Salvador, coração negro do Brasil, capital primeira do Brasil. E o movimento que se instala, cada vez mais intenso e vivo, um desfile que foi tomando o seu lugar pelas ladeiras circundantes: os filhos de Gandhi, o Olodum, as baianas como se conhecem por esse mundo fora, Bumba Meu Boi, Iemanjá. E de máquina fotográfica em punho embalada com o ritmo contagiante, o cortejo rodopiou, com o sol a brilhar já cadente por trás da Igreja de São Domingos de Gusmão, o contraste necessário para o fulgor do desfile, que soube depois, seria do Dia do Folclore, celebrado a 22 de Agosto no Brasil, escrito para sempre nos meus 22 de Agosto vindouros.

Mas Salvador é mais do que uma data. Salvador é um sentimento que não se deixa pôr por palavras. É ir ao Bonfim e conversar com a Carol e o Jairson sobre patuás e orixás, Erê, o meu, e ninguém tocou ainda, Carol, e fitas coloridas, trazer a pagela do Santo Expedito que todos os dias me olha aqui mesmo ao lado. É ver a cidade lá em baixo. É subir e descer as ladeiras do Pelô, regatear com o Caetano o preço dos colares de sementes, descer o elevador Lacerda com a Baía de Todos os Santos em frente, azul e imensa, e vislumbrar do outro lado Itaparica, berço de João Ubaldo Ribeiro. É passear no Mercado Modelo entre souvenirs e pinturas, comprar o que quase todos os turistas compram, mas não, um berimbau não, sentarmo-nos no Maria de São Pedro com a baía que se estende como um lençol azul prateado até encontrar as nuvens plúmbeas do Inverno baiano. Ver os capitães da areia lá em baixo, trocar impressões com os inúmeros artistas que frequentam o restaurante – é sabido que baiano não nasce, estreia– enquanto se saboreia uma moqueca ou se relê sem livro algum à nossa frente, a prosa poética de Jorge Amado, alguma dela escrita no Rio Vermelho, onde se pode provar o acarajé longe do burburinho do Pelô. Salvador é o Recôncavo de Dona Canô e o Reconvexo de Bethânia. É saber ali perto Itapoã, onde Toquinho e Vinicius passaram uma tarde de vagabundagem e onde um dia irei sentir a terra toda a rodar. Sem mais palavras, portanto.

 

 

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14 comentários em “Tardes de Salvador”

  1. Excelente texto, Leonor. Excelente reportagem. Gostei muito das alusões aos ‘capitães da areia’, recordando-me um dos livros da minha vida, e à dupla Vinicius-Toquinho, que compôs em Itapoã aquela que é uma das canções da minha vida. Saravá!

    1. Depois sentir o arrepio
      Do vento que a noite traz
      E o diz-que-diz-que macio
      Que brota dos coqueirais
      E nos espaços serenos
      Sem ontem nem amanhã
      Dormir nos braços morenos
      Da lua de Itapoã
      🙂

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