Task managing


Maria Dulce Fernandes,

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De todas as obras do universo da criação, o ser humano é seguramente a mais dependente de todas as criaturas.

Tomo-me como verdadeira prova provada da minha anterior citação, pois como racional que sou, não consegui racionalizar a complexa situação com que me deparei na manhã em que as máquinas pararam.

Não me considero lerda nem ignorante, nem incapaz… nem ao que parece muito humilde.

Não trato por tu os computadores, servidores, bastidores e outros estupores mecanizados, mas sempre tivemos uma relação de reciprocidade tolerante. O meu conhecimento limitado é suficiente para podermos trocar galhardetes, eu e as máquinas chipadas. A sua memória é efectivamente mais poderosa do que a minha, mas eu tenho o poder de lha limpar, ou formatar, ou optimizar, até mesmo de a recarregar, introduzindo novos objectivos e objectos que criarão novas e poderosas memórias numa memória que se resumirá a uma vaga recordação.

Dias há em que as hostilidades abrem cedo e a minha antiga massa cinzenta range de agonia, volteando na busca incessante pela solução, que normalmente tarda, mas não falha. É um feito davidiano suplantar uma máquina teimosa e isso torna-nos orgulhosos, de bem connosco, vaidosos, até.

Depois aconteceu hoje. Uma noite dormida a correr despertada por uma aurora vermelha e ardente num fundo de azul límpido, duas chalaças e um café duplo sem açúcar, a escada, a luz e o ritual dos botões.

Os monitores saudaram-me sorridentes na sua habitual simpatia. Os sistemas operativos operaram ao som da sua opereta matinal, retribuíndo-me fundos azuis repletos de ícones coloridos e os programas do arranque, a pensar no fim de semana prolongado, esses arrancaram sem dúvida, mas dali para fora os torpes vilões não quiseram dar ar da sua graça, nem da minha, nem da de ninguém.

Seguiu-se o habitual liga-e-desliga, põe e tira, entra e sai, mas do azul redundou a escuridão total e eu, sempre tão sábia e ciente das minhas capacidades, parecia uma criança de meses a tentar gatinhar, balbuciando um jargão incoerente e babado, sem conseguir acreditar que me encontrava com uma pulseira electrónica, um gadget que não me tolhia os movimentos, mas me deixava subjugada aos caprichos implacáveis da mãe de todas as máquinas, a matriz que não me serve e  cujo servidor afinal sou eu.

Agastada e desorientada, aceitei a derrota com a raiva de quem sabe que se não morreu na batalha, nunca desistirá da guerra!
Hoje foi o dia em que o switch me apagou do sistema, a mim, a prodigiosa task manager.

 

Olhei de lado para uma esferográfica e uma resma de papel A5, respirei fundo e pensei que era boa ideia começar a preparar-me para os dias do fim. 

4 comentários em “Task managing”

    1. Sabe luck, ao contrário de muitos comentadores, eu raramente me ligo à Internet para tratar de assuntos particulares ( FB, Delito, Messenger, etc) quando estou a trabalhar. Bem que gostaria, mas é raro ter tempo.
      Em casa é raro ter problemas informáticos. Mas que vou rabiscando ideias em folhas A5 enquanto estou no trabalho, isso é certinho.

      1. Ok. Eu também , gosto mais de papel que computadores, embora estes me permitem fazer muito maise além de ficar muito melhor organisado.

        1. Um tablet maneirinho normalmente faz o que preciso sem grandes aparatos. Cabe na mala, tem os programas e edição de imagem, texto, etc., guarda tudo na núvem…
          Tem o contra de, por mais que eu desabilite o corrector ortográfico, aparece sempre algo que não faz sentido e que não me lembro de escrever. Parece que tem a ver com o português PT-PT, que afinal nem sempre é PT-PT.

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