Teresa Caeiro


José Meireles Graça,

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Adolfo Mesquita Nunes disse no Facebook, sobre Teresa Caeiro:

“Falar-se-á muito, e bem, das enormes qualidades pessoais da Teresa Caeiro. Já falei delas aqui e do quanto lhe devo. Mas neste momento triste deixem-me que fale da política. Incansável e dedicada, bateu-se muito cedo, e muito tempo e de forma pioneira, pela aprovação da prescrição de medicamentos por princípio ativo (genéricos), pela inclusão da vacina contra o cancro do colo do útero no Plano Nacional de Vacinação, pela prescrição e dispensa de medicamentos em dose individualizada e em dose unitária. Foram combates dela, em que esteve muitas vezes isolada. E foi pela voz dela e por pressão dela que esses temas entraram na política e, em alguns casos, se concretizaram em políticas públicas. E foi com ela, e eu testemunhei pessoalmente isso, que se deram os primeiros passos no cruzamento de dados entre Segurança Social e Finanças. A Teresa Caeiro era também isto e por isto também merece ser lembrada. Não era só a amiga genial, culta, de gargalhada fácil, assim como também não era só a mulher doce e sempre atenta aos mais vulneráveis. Era tudo isso e já seria muito. Mas era também isto que descrevo e que espero sinceramente que não fique esquecido. Enquanto política, livre mas sempre leal, a Teresa deu-nos muito, tantas e quantas vezes pondo o trabalho, o parlamento, as pessoas, à frente dela e das suas vontades. Entregava-se e dessa entrega nasceram políticas. Num tempo em que escasseiam referências, fiquei sem uma”.

Sucede que Teresa Caeiro foi encontrada morta em sua casa e que tinha apenas 56 anos. 56 anos não é idade para se morrer, a não ser de cancro, que não tinha, ou de acidente, que não foi, ou de crime, que não existiu.

Depois, as pessoas lembram-se da sua presença no Parlamento – bonita, atraente, bem vestida, bem-disposta, com um discurso que traduzia óbvia inteligência.

Parece que, ainda que pertencente ao CDS, ninguém a detestava nos restantes partidos, coisa que ela pagava não sendo capaz de detestar pessoalmente ninguém. E não há razão nenhuma para supor que as manifestações de pesar, ainda que algumas por dever de função, não traduzam o genuíno desgosto por um fim prematuro e trágico.

Sobre o cadáver ainda mal frio, porém, nasceram nas redes, como cogumelos, consideração sobre a Tegui, os amigos da Tegui e os ex-maridos da Tegui, muitas vindas de quem pelo visto tinha intimidade com ela para assim se lhe referir, e que começavam quase sempre por lhe elencar as qualidades antes de apontar um dedo justiceiro aos putativos causadores da morte e às alegadas insuficiências dos amigos próximos, que já o eram quando foi deputada, e que continuaram a ser no resto do seu trajecto de vida.

Há nisto alguma inevitabilidade – grandes desgraças têm culpados, e esses têm de ser pessoas, pelo que fizeram umas, e não deviam ter feito, e pelo que não fizeram outras, e deviam.

A morte é, com esses textos, de algum modo exorcizada: ai que se não fossem “eles” a “Tegui” ainda poderia estar viva. E, é claro, fica subentendido que os autores das arengas, por serem detentores de grande virtude, não sofrem dos defeitos das pessoas supostamente responsáveis pelo desenlace, que amarram ao pelourinho.

Que fiquem em paz, que as indignações que se vão ventilar para as redes têm importância nenhuma e duram o tempo de uma leitura apressada.

Todavia, apareceram textos irados sobre o casamento desfeito há quase 8 anos com Miguel Sousa Tavares, ao que se diz porque este exercia sobre ela violência doméstica. Ignoro por completo se esta alegação tem fundo de verdade, mas, se tiver, reclamar agora por alguma espécie de castigo (que, do ponto de vista legal e penal, não tem a menor sustentação) é, antes de ser outra coisa qualquer – e a mais evidente é malevolência em estado puro – uma completa falta de respeito pela falecida. Porque, sendo evidentemente dona do seu nariz, nunca fez nada a este propósito nos mais de sete anos em que sobreviveu ao casamento e, se não fez, é porque não havia razão para fazer ou havia mas escolheu, por razões que só a ela pertenciam, a abstenção.

Este discurso vingativo e justicialista é, além do de incontinentes verbais com muita sanha e pouca gramática, o de algumas feministas (também será de alguns, que ele há de tudo neste mundo). E também aqui há falta de respeito – Teresa Caeiro não merece ser um totem de causas que agora se alega que não defendeu em vida da forma que devia ter defendido. Respeitar as pessoas implica respeitar-lhes as escolhas, se foram feitas em liberdade; e aproveitar-lhes as mortes para as erguer como uma bandeira é oportunismo reles.

Depois há os oportunistas políticos: Miguel Sousa Tavares é arrogante, suficiente, figura da televisão e do comentariado de esquerda, óptimas razões para o crucificar. Não faltam vozes a dizer que tem a pecha de ser violento com mulheres. Porém, não há que eu saiba queixas e menos ainda processos. De modo que, pelo que me diz respeito, prefiro detestar-lhe as ideias sem precisar, para o apoucar, de comprar o que diz a vox populi como se fosse ouro de lei.

Restam os que dela eram verdadeiramente amigos e não apenas conhecidos. E estes, que sabem mais do que o que julga que sabe a opinião pública, fizeram sempre o que fazem os amigos: apoiar, defender e proteger.

Mesquita Nunes diz o que valia a pena ser dito. O mais é lama. 

14 comentários em “Teresa Caeiro”

  1. Nunca me cruzei com Teresa Caeiro mas, se é metade do que dizem Mesquita Nunes e Meireles Graça, é mais uma que não percebo como casou. com MST. A outra é Laurinda Alves.

  2. Gostei do Equador e até comprei 2 em francês para oferecer. O Rio das flores
    igualmente mas como na altura ainda não existia a versão em francês… caiu no esquecimento , já o autor francamente não
    gosto mesmo nada . Até me cruzar com ele não imaginava que fosse um homem
    pequeno e não é certamente por isso que
    ele me desagrada.

  3. Muito bom, subscrevo. “Respeitar as pessoas implica respeitar-lhes as escolhas, se foram feitas em liberdade”, é a regra de ouro a observar.

  4. José, obrigada por este postal.
    Não conhecia a Teresa Caeiro, mas chocou-me a inundação de especulações e considerações linkedin e instagram dentro, teríamos “conexões” suficientes em comum para isso. E chocou-me, principalmente, porque vinham de gente certamente emocionada, mas com idade para ter juízo e decoro suficientes para não entrar em bate boca de café da aldeia, ou de pátio do liceu. A senhora deixou cá filhos, pelo amor de Deus, e se calhar pais e irmãos também.

  5. Depois de toda a polémica em torno da morte de Teresa Caeiro, parece-me que o resumo poderá ser este:

    1- A violência doméstica pode ocorrer em qualquer família e é independente de qualquer “casta social”;

    2- As vítimas de violência doméstica nem sempre são capazes de denunciar as agressões/abusos perpetrados contra si, independentemente das respectivas habilitações literárias ou da experiência de vida…

    Os motivos que podem levar a 1 e a 2 podem ser muito variados, dependem de inúmeros factores de diversa natureza, pelo que não é intelectualmente honesto extrair conclusões universais, que consigam explicar toda a realidade…

    Tudo o resto é “folclore”, é intriga, é julgamento precipitado e fácil de terceiros e uma grande vontade de apontar a outros aquilo que cada um, muitas vezes, também não é capaz de fazer no seu quotidiano:

    – Denunciar formalmente todo e qualquer abuso perpetrado contra si e/ou contra terceiros, independentemente de quem seja o agressor…

    Julgar os outros e apontar-lhes falhas é sempre muitíssimo mais fácil do que agir, todos os dias, em conformidade com aquilo que se defende numa situação alheia…

    E agora deixemos a Teresa Caeiro em paz.

    Lamento, sinceramente, a sua morte.

  6. A verdade é só uma: depois da morte tem muitos amigos e amigas. Mas foi abandonada e morreu sozinha.

  7. Este texto dá a impressão que José Meireles Graça desconhece que as alegações de maus tratos começaram num texto assinado pelo Diretor-geral editorial adjunto do Correio da Manhã que aparentemente era seu amigo e segundo diz agora está arrependido por a ter aconselhado a não seguir a via judicial.

    Por detrás da paywall.
    https://www.cmjornal.pt/politica/detalhe/a-dor-de-teresa-caeiro

    O Sousa Tavares entretanto abandonou o jornal Record do mesmo grupo e diz que vai seguir para via judicial.

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