Tese (contra-a-corrente) para animar uma cidade


J.M. Coutinho Ribeiro,

O retrato de Lisboa que Pedro Correia traça abaixo não é um exclusivo da capital – passa-se o mesmo em todas as nossas grandes cidades. Há quem garanta que a forma de inverter a desertificação dos centros urbanos passa por dificultar o acesso automóvel. Discordo – os centros urbanos precisam é de mais automóveis. Mas antes que desatem a gritar de indignação, permitam-me que explique a tese.

Os grandes centros urbanos foram construídos numa altura em que não havia automóveis. Logo, as habitações foram construídas sem garagens. Hoje, praticamente, todos têm automóveis e, por não terem onde guardá-los, os habitantes dos centros rumaram à periferia, onde as casas têm garagens, com elevadores quase directos para as suas habitações, permitindo transportar confortavelmente as suas compras que confortavelmente adquiriram em confortáveis centros comerciais, com escadas rolantes e parqueamento gratuito. No entanto, muitas destas pessoas que se deslocaram para a periferia continuam a trabalhar nos centro da cidade e, por isso, vêem-se obrigadas – ou habituadas – a ir trabalhar de automóvel, entupindo as ruas, pagando preços exorbitantes pelo estacionamento, porque, entretanto, tiveram que deixar os filhos na escola, tudo muito pouco compatível com os transportes colectivos.

Vejamos um exemplo: eu trabalho na Baixa do Porto e vivo em Gaia, junto à Ponte da Arrábida, onde há autocarros, mas não há Metro. Logo, sou um dos muitos que todos os dias se deslocam de automóvel para a Baixa, até porque nunca sei se vou precisar dele para uma deslocação não prevista.

Ora, se na Baixa do Porto houvesse habitações com garagem, haveria cafés abertos até tarde, esplanadas e estabelecimentos com horário de centro comercial e, por certo há já muito viveria perto do meu escritório. E, aí, no dia-a-dia, circularia a pé entre casa e o escritório. E, aí, seria um dos muitos milhares que ao fim do dia daria vida a artérias que, agora, são desertas, com os seus cafés fechados e com a sua insegurança.

Entendamo-nos, pois: a ideia não é tirar os automóveis da baixa – a ideia é que a reabilitação urbana arranje forma de criar condições para que os automóveis possam estar lá e não precisem de ser utilizados. Os quintais abandonados no miolo dos quarteirões permitem criar as garagens que tornariam os centros muito mais apetecíveis. 

E convém andar depressa, antes que os escritórios e os estabelecimentos sejam obrigados a fechar por falta de clientela e porque é desconfortável ir ao centro da cidade. E, então, nem automóveis, nem pessoas – apenas um imenso deserto a qualquer hora do dia.

36 comentários em “Tese (contra-a-corrente) para animar uma cidade”

  1. Ora aqui está algo que faz todo o sentido: o automóvel é um bem que hoje faz praticamente parte do que temos por essencial (o que não bule com algumas pessoas que optam por não ter carro).

    Portanto, a sua utilização e a orientação da vida de cada um em função dele deve encarar-se como um direito tão respeitável como a oferta de transportes alternativos.

    Quando elegemos autarcas e lhes pagamos é para gerirem as nossas cidades e não para nos dificultarem a vida e atropelarem os nossos direitos. Sejam imaginativos ou deixem o lugar a outros.

    Assim sendo, concordo contigo, Joaquim, por duas razões:
    – por um lado, pelo que já expus acima;
    – por outro, porque a f. defende o contrário (se bem entendi um texto duvidoso que li naquele blogue cujo nome, por si só, já dá voltas aos melhores estômagos).

    1. Ou nem esses, Cristina. Não se pode pedir eternamente às pessoas que se adaptem às cidades: acho que é preciso que as cidades se adptem ás pessoas e ao seu modo de vida.
      Construir uma cidade é ter isso em atenção.

    1. Teresa: quando as pessoas pensam, são capazes de dizer alguma asneiras mas, mais cedo ou mais tarde, acertam uma. O problema é que a generalidade dos nossos autarcas não pensa. Logo, vão mimetizando as asneiras uns dos outros, porque se tornou politicamente correcto.

  2. Concordo plenamente e, pelo que sei, essa é uma estratégia já usada, com êxito, em várias cidades europeias. Outra variante seria favorecer/incentivar a recuperação de casas antigas. Muitos, como eu, agradeceriam.

    Deixar os centros urbanos sem habitantes permite que sejam ocupados das mais variadas formas, sendo que a maioria delas não favorece o desenvolvimento das cidades, muito pelo contrário. Este é um assunto que deveria preocupar e ocupar os políticos.

  3. Li a primeira vez e hesitei. Depois reli e… concordei. É isso mesmo, mas a nossa cabeça já está formatada para rejeitar a ideia de carros nos centros históricos. A verdade é que se houver lugar para eles, as pessoas aderem melhor e esses centros não ficam desertos e não morrem. Gostei do raciocínio que fui obrigada a fazer, Joaquim…

    1. Como sabes, até os comerciantes não gostam que lhes tirem os carros da porta. É óbvio. O perigo é precisamente começarmos a habituar-nos à ideia que andam a impor-nos.

    2. Obrigado, Ana.
      Se não for de outra forma, só ficam os tão velhos que já não têm ou nunca tiveram carro. E não vale a pena pensar que é possível reabilitar com residências de estudantes: é que, hoje, até os estudantes têm carro. Pelo menos a maioria.

  4. Meu caro,
    Como dizes tudo tem a ver com a visão de cidade que se pretende (partindo do princípio de que existe alguma). As soluções estão todas inventadas. Numa cidade como Hong Kong, que conheço bem, a solução – óptima, posso confirmar – foi construir silos automóveis, em altura, que permitiram levar os carros para o centro sem obstruir as ruas.
    Mas há que estacionar os carros nos silos – não em cima do passeio, à porta do banco ou da loja ou da escola, para não dar sete passos a pé, bem à portuguesa.
    Outro problema básico é a falta de investimento na reabilitação urbana: prefere-se deixar cair um prédio de podre e construir outro, de novo, do que reconstruí-lo. Lisboa é a capital europeia que menos gasta na recuperação de prédios. O resultado está à vista. Lamentavelmente.

    1. As diferentes teses podem encontrar-se em algum ponto do caminho, Pedro.
      Como imaginas, eu também não gosto de ruas pejadas de carros em movimento ou estacionados nas ruas, anarquicamente. E gosto muito de ruas e praças pedonais. O meu ponto de vista vai precisamente nesse sentido: se se criarem condições para as pessoas viverem na baixa, haverá menos automóveis em trânsito e mal estacionados. Porque haverá mais pessoas a andar a pé e automóveis nas suas garagens.

  5. O seu texto é sensato e tem a característica que acho fundamental de não ser Manuel vai com os outros… E isso é muito importante! Buliu comigo!
    :))

  6. lamento estra contra a corrente, mas esta discussão parece-me bastante útil e importante para a campanha que se avizinha.
    Um candidadto que queira falar com seriedade aos lisboetas, não pode esconder a necessidade de, mais tarde ou mais cedo, ser obrigado a introduzir portagens em Lisboa. A Comissão Europeia já levantou processos a Portugal por ter ultrapassado várias vezes, nos últimos anos os limites mínimos.
    Lembro apenas que em França, durante o Verão, são várias as cidades que pura e simplesmente encerram o trânsito, por serem ultrapassados os limites máximos de monóxido de carbono na atmosfera. Por outro lado, em Londres, a medida foi um sucesso.
    Quanto ao parqueamento selvagem em Lisboa, já não seria problema se António Costa tivesse cumprido as suas promesas eleitorasi, mas sobre isso escreverei noutro dia.

  7. Concordo em absoluto consigo, Joaquim, pois está bem patente, à vista de todos o que foi, no Porto, a política do “enxota-carros” começada no Porto 2001 e que, incrivelmente~, continua a ser prosseguida. Uma cidade sem carros, (pelo menos em Portugal, nas nossas cidades) é uma miragem pura e simples e só tem alguma validade como história de BD. As cidades sem carros, projectam-se de raíz e não se fazem sobre as actuais cidades a por-se barreiras e empecilhos de toda a ordem à circulação dos automóveis que, quer se queira, quer não, são um bem essencial e indispensável à vida moderna. O resultado destas poíticas avulsas, tolas e (essencialmente) eleitoralistas, está bem à vista de todos. O Porto, hoje, (como Lisboa, como refere o Pedro, e muitas outras) é uma cidade despovoada e uma volta, hoje, por muitos lugares da baixa, mesmo à tarde, num dia de semana é uma caminhada penosa e triste.
    Há larguíssimos passeios para os peões, mas não há gente para os encher. Há ruas pedonais cheias das tais lojas fechadas e muitas delas em ruínas, onde quase ninguém passa. Existem numerosas explanadas, vazias a maior parte do tempo. E isto porquê? Porque as pessoas (e nestas estou, como é óbvio, a incluir as que se deslocavam de carro) foram enxotadas da(s) baixa(s) da(s) cidade(s) e agora, quando o desastre já está iminente, fala-se em recuperar a baixa e trazer as pessoas de volta aos centros… É capaz de já ser um pouco tarde…

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