Testemunho de um “filme” com Eurico Figueiredo


João Pedro Pimenta,
 
Regressado de Vila Real, da despedida e das cerimónias fúnebres de uma querida pessoa de família, sou informado da morte de outro ilustre vilarealense: Eurico Figueiredo, que sabia debilitado há já bastante tempo. Natural de Justes, tal como a minha avó, com cuja família aliás a sua nutria uma certa rivalidade pela velha questão monarquia-república, o Professor Eurico destacou-se como um dos mais radicais organizadores das greves estudantis dos anos 60, que o levaram a exilar-se na Suíça, país onde tirou o curso de psiquiatria e cujo modelo académico e social admirou sempre. As notícias referem a sua militância no PS, onde chegou a ser deputado e ministro-sombra para a saúde. Falam menos do seu percurso posterior, onde se envolveu na causa da regionalização e ajudou a fundar o PDR com Marinho “e” Pinto antes de romper definitivamente com o ex-bastonário e de ser cabeça de lista pelo Porto pelo MPT nas legislativas de 2015 (e não pelas Europeias de 2014, como a notícia do Observador estupidamente refere, até porque nas europeias não há listas por distritos).
 
Por concidência, também eu fui convidado para as listas desse partido fundado por Gonçalo Ribeiro Telles e que apresentava então outros nomes interessantes (na lista de Lisboa, por exemplo, constava Rodrigo Saraiva, hoje deputado pela IL, Manuel Ramos, recentemente advogado oficioso de Sócrates por 3 dias e Carmona rodrigues como mandatário). Conheci Eurico Figueiredo verdadeiramente aí, onde protagonizou alguns momentos de campanha insólitos, como a declaração de greve de fome (a fotografia no artigo da versão em papel do Público, junto à Segurança social do Porto, é precisamente desse momento), pelo facto de a Segurança social não lhe devolver uma quantia erradamente retida, mesmo contra decisão do tribunal, demonstrando o mau cumpridor que o Estado é), o protesto contra o preço do vinho dos pequenos produtores (que ele também era), convidando os transeuntes a beber um copo de vinho de baixo custo em frente a uma grande superfície, e sobretudo o gesto radical de defesa do património. A escolha recaiu, por sugestão minha, na Ponte D. Maria Pia. Eurico Figueiredo, que afirmava que “temos um Eiffell no Porto assim como outros têm Picassos na sala”, queria uma faixa atravessada a todo o comprimento da ponte, com os dizeres “reabilitem-me, carago”, inspirado no “construam-me, porra” do Alqueva. Decidiu-se por um mais heterodoxo “por favor, recuperem-me” e por colocar a faixa na base do pilar da margem direita, já que a primeira ideia era quase impossível, assim como a de lançar asas delta verdes com o mesmo propósito. O próprio Prof. Eurico encomendou a faixa a expensas próprias e numa manhã, nos dias finais da campanha, lá conseguimos, apenas duas pessoas, colocá-la. Digo “conseguimos” mas ele é que subiu aos pontos mais altos e difíceis. A coisa ainda teve alguma curta repercussão, assim como o manifesto a favor de entregar os transportes públicos a entidades metropolitanas públicas – nem privatização nem estatização – mas a escassez de meios e de publicidade e a sabotagem por parte de elementos do movimento de Marinho, que depois se transformaria no ADN, falhou a eleição por bastante.
 
Para piorar, a campanha da ponte tinha o conhecimento prévio de Paulo Cunha e Silva, o então imparável vereador da Cultura do Porto, e serviria para lançar um movimento que, ultrapassados os escolhos burocráticos, permitiria uma reabilitação prática do monumento. Antes que se pudesse fazer uma reunião definidora com Cunha e Silva, que não recusava uma boa ideia, este morreu subitamente, como se sabe. A ponte continua na mesma, dez anos volvidos.
 
Julgo não revelar nenhum segredo de estado ao relembrar esta história. Assim era Eurico Figueiredo, um enorme psiquiatra mas também um homem de acção, por vezes até demais, unindo genialidade a impulsividade. Era também um transmontano verídico, nunca se esquecendo de onde vinha. Houvesse mais como ele.
 
Desculpem a qualidade das fotografias, que são de um modelo sony de há dez anos, o meu primeiro smartphone. E bom 2026 a todos.

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Um comentário em “Testemunho de um “filme” com Eurico Figueiredo”

  1. Grande Eurico Figueiredo. Prestas-lhe merecida homenagem, na linha do que também escrevi.
    Fazem-nos falta mais espíritos livres como os dele. Um verdadeiro homem da liberdade, em todos os ciclos políticos que viveu.

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