Tiques


Carlos Barbosa de Oliveira,

Já aqui falei de alguns tiques dos portugueses,  reveladores de uma mentalidade de Estado Novo. É o caso, por exemplo, do arreigado espírito  corporativo que teima em manter-se como uma característica da nossa personalidade.

A “novela” Durão Barroso vem revelar outro aspecto dessa faceta que, sinceramente, me provoca urticária. Defender que todos os portugueses devem apoiar a recandidatura do José Manuel, só porque é português, parece-me  estúpido e mesquinho. Claro que a actual direcção do PSD, com a sua  tendência para o chinelo, já veio exigir que o PS clarificasse se é a favor ou contra a reeleição de Durão Barroso, tentando com isso obter dividendos eleitorais.

Já imagino Manuela Ferreira Leite  e a sua trupe a acusar o PS de falta de patriotismo – no caso de a corrente rosa, que só pretende tomar uma decisão depois das eleições, fazer valer a sua opinião dentro do partido – ou a esgrimir, durante a campanha eleitoral, o argumento de que um voto no PS é um voto contra Portugal.

Esta  “exigência” do  PSD é ridícula, porque ignora um ponto fundamental: a composição do Parlamento Europeu, depois das eleições de Junho, será determinante na escolha do futuro presidente da Comissão.

Não me espanta que o PSD dê pouca importância aos resultados das eleições europeias. Parece-me até normal, num partido cuja líder é favorável à suspensão da democracia, durante seis meses, para poder fazer as reformas que pretende. O que me parece anormal é defender um candidato por ser português, sem sequer equacionar se isso é bom para a Europa. E, em minha opinião, o nome de Durão Barroso não é bom, porque ficará para sempre ligado à tristemente célebre Cimeira dos Açores, onde avalizou a invasão do Iraque. A Europa não  precisa de um líder que teceu rasgados elogios a Bush e foi avalista de um dos  episódios mais negros da História recente. Não precisa de um líder troca-tintas, carece de um líder com visão de futuro, que não tenha um passado que a envergonhe.

Mas no meio desta discussão tonta, o PS também não fica bem na fotografia. As hesitações, as divergências entre Sócrates e o seu cabeça de lista, as meias palavras, deixam transparecer a imagem de um partido à deriva, que não sabe o que quer. Nem para o país, nem para a Europa. Enfim, é o Centrão no seu melhor. Um conjunto de trogloditas que esgrime o patriotismo nuns dias e noutros nos vem falar de globalização e de uma União Europeia como uma entidade onde se devem diluir, na medida certa, as idiossincrasias nacionalistas. 

Tá bem, abelha!

8 comentários em “Tiques”

  1. A ida de Durão para a presidência da CE foi o que foi. Fugu de um governo paralisado, deixou-o entregue a quem ele próprio tinha chamado de misto de Zandinga e Gabriel Alves, o que se sabe.

    Mas também se sabe que Sampaio, PR na altura, encorajou Barroso a ir, pelo que isso representava para Portugal.

    E ignorar isto, ou seja, a importância que é ter um português naquele cargo, é ignorar demais.

    E também fico muito admirado por não ter passado pelas cabecinhas dos socialistas que já apoiaram a permanência de Barroso no cargo que isso depende à partida dos resultados das eleições europeias.

    Anedótico mesmo foi a camarada e também ex-MRPP Ana Gomes ter vindo sugerir à cabeça o nome de Guterres para o cargo, como se o facto de ser português desse direito a assinatura.

    1. Bem, na realidade, o presidente e os membros da Comissão são nomeados pelo Conselho da União Europeia, por maioria qualificada, após aprovação pelo Parlamento Europeu.

  2. Acho piada ao cartaz do Vital Moreira onde diz «Nós, Europeus». Devia dizer «Nós, que sempre estivemos contra a União Europeia nos nossos tempos áureos».

    1. Parece-me que esta frase da memória “mediana” já há muito que não está na “moda”. E nem é preciso calcular a “média” nem o “desvio padrão”! Mas isto é só o que me parece!
      :))

      1. Eu explico: foi para não escrever Memória de Elefante, por não ser precisa para uma pessoa se lembrar perfeitamente de Vital Moreira no PCP criticando ferozmente a então CEE e tudo o que cheirasse a adesão de Portugal a esse “demónio”.

        1. Como dizia o poeta:

          Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
          Muda-se o ser, muda-se a confiança;
          Todo o Mundo é composto de mudança,
          Tomando sempre novas qualidades.

          Continuamente vemos novidades,
          Diferentes em tudo da esperança;
          Do mal ficam as mágoas na lembrança,
          E do bem, se algum houve, as saudades.

          O tempo cobre o chão de verde manto,
          Que já coberto foi de neve fria,
          E em mim converte em choro o doce canto.

          E, afora este mudar-se cada dia,
          Outra mudança faz de mor espanto:
          Que não se muda já como soía.

          Luís Vaz de Camões (1595)

          :))

  3. Não. hoje não estou nada confusa. Estou muitíssimo de acordo com a sua análise da primeira à última linha.

  4. Só nos lembramos da solidariedade conterrânea quando ela vem ou está lá fora. Cá dentro só não nos matamos a todos porque não pode ser… Alguém devia avisar o Sócrates que se calhar ganhava mais votos se não apoiasse o cherne. Assim nem precisava de ser hipócrita 🙂

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *