Tiros de pólvora seca contra a resistência ucraniana


Pedro Correia,

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São insondáveis os critérios que levam alguns canais televisivos a eleger «especialistas em questões militares».

O principal motivo de escolha devia ser a capacidade de qualquer deles para descodificar e contextualizar as manobras bélicas em curso na Ucrânia, deixando considerações políticas de fora. Até porque comentadores políticos não faltam nesses canais.

O segundo – e fundamental – critério seria a capacidade desses convidados para antever o que iria passar-se no terreno.

Acontece que alguns destes supostos especialistas acorreram aos ecrãs nos primeiros dias de guerra, tendo falhado em quase tudo quanto disseram. Além de usarem as questões militares como mero pretexto para fazer considerações políticas, benevolentes até à náusea face à potência invasora.

Nem uma coisa nem outra conseguiram removê-los da pantalha, onde persistem em revelar enorme incapacidade para acertar no alvo. Enquanto se sucedem notícias das atrocidades russas no martirizado país vizinho.

 

Um dos casos mais notórios é o do major-general Agostinho Costa.

A 28 de Fevereiro, quatro dias após o início da agressão decretada por Vladímir Putin à Ucrânia, este alegado especialista compareceu na SIC Notícias, que lhe concedeu mais de um quarto de hora para perorar sobre o tema. Enalteceu os russos, criticou os dirigentes ocidentais e disparou tiros de pólvora seca contra a resistência ucraniana.

Sobre o secretário-geral da NATO: «Está [a resultar, a invasão russa]. Onde anda a NATO? O senhor Stoltenberg amanhã devia entrar como governador do Banco da Noruega. Já tem emprego.»

Sobre Josep Borrell, responsável máximo da União Europeia para a Defesa e Negócios Estrangeiros: «Quem decide a política externa da Europa não são os europeus. Os europeus não decidem nada.»

Sobre a cúpula de Moscovo: «O senhor Putin é um jogador de xadrez. E lá não é como cá. O senhor Shoigu, o ministro da Defesa, é um homem de barba rija.»

Sobre Zelenski: «Estou convencido que o senhor Zelenski já não está lá [em Kiev]. Senão a gente via-o na rua. Já não está lá. Está certamente em Lviv.»

Entre críticas ao Ocidente por «lançar gasolina» na Ucrânia e a certeza de que neste país «há armas a ser entregues a bandidos». E uma convicção: Putin «vai conseguir».

 

A 8 de Abril, agora na CNN Portugal, o mesmo major-general viu-se forçado a concluir: «Os objectivos que os russos alcançaram em 44 dias de campanha são nitidamente poucos, nitidamente insuficientes, tendo em conta todo o aparato inicial.» E concedeu: «Houve um excesso de confiança russo logo no início.»

Ah, o exímio jogador de xadrez afinal falhou. Ah, o tal homem da «barba rija» viu-se forçado a abandonar o cerco a Kiev. Ah, Zelenski mantém-se firme na capital, não fugiu para Lviv. Cobrindo de ridículo aqueles que no conforto climatizado dos estúdios, neste cantinho mais ocidental da Europa, tentaram lançar-lhe lama.

Que alguns sejam militares não constitui atenuante: é agravante. Para eles e para quem continua a dar-lhes guarida serão após serão.

 

Texto publicado no semanário Novo

36 comentários em “Tiros de pólvora seca contra a resistência ucraniana”

  1. Às vezes interrogo-me: será que o dito sujeito – e outros – recebem uma avença do czar? Ou será a sua ideologia a falar mais alto?
    Também me parece que nós, enquanto sociedade, valoramos demasiado os nossos militares, designadamente as altas patentes. Tal resulta, em minha opinião, de empolarmos demasiado o movimento 25 de Abril. Necessidade de criar mitos?

  2. Mais do que tudo, é um imbecil. E chegou a general. E esta panóplia de generais comentadores televisivos (pelo menos um até para lá vai fardado) é uma demonstração de um tétrico estado das nossas Forças Armadas.

    1. As nossas forças armadas têm poucos índios: 1/3 são soldados, 1/3 são sargentos, 1/3 são oficiais, e destes uma parte grande são oficiais generais.
      Portugal tem tantos generais como alguns exércitos com centenas de milhar de militares. E, para chegarem a general, os oficiais, tanto subalternos, como os chamados superiores, pouco têm que fazer, para além de se manterem vivos e atentos à oportunidades, que são muitas, tanto cá como no estrangeiro, para melhorarem o corriculo.

        1. Não. O que escrevi é que as forças armadas portuguesas têm muitos chefes e poucos índios, ou seja, que têm muitos sargentos e oficiais e poucos soldados ou marinheiros. E que é fácil chegar ao topo da carreira.

  3. Portugal é especialista em criar especialistas sempre do lado errado.
    Tivémos os especialistas do lado do Covid agora do lado Russo.
    Os chamados ESPON
    Especualistas de Porra Nenhuma

    1. Tivémos os especialistas do lado do Covid

      Exatamente. Muitos deles. A ter poder sobre as nossas vidas. Martirizadas.

      Ao menos estes especialistas generais não nos fazem mal nenhum com as suas opiniões. Ao contrário dos especialistas do covid, que nos prejudicaram (e ainda continuam a prejudicar os nossos filhos) imensamente.

  4. O jornalismo está podre. Em vez de factos e isenção temos entretenimento e conversa de cafe por adivinhos e comediantes. O estilo Correio Manha paineleiros da bola vingou nas restantes Tvs.

  5. Este desfile de militares lembra uma frase muito conhecida cujo autor lamento desconhecer e que diz singelamente o seguinte: “A guerra é um assunto demasiado sério para ser deixado nas mãos dos militares”.

    Cumprimentos

    1. Coitada da ministra portuguesa da Defesa, recém-empossada. Nunca poderá ser elogiada por este major-general. Falta-lhe um atributo indispensável: ter “barba rija”.

  6. além de costa e bronco aparece outro intelectual, o bernardino.

    Prophylaxia da peste, febre amarella e cholera-morbus : medidas applicaveis na Europa / por A. V. de Campos Carvalho – 1867
    …Entre as medidas propriamente restrictivas e a evacuaçao livre do foco epiaemico, sem a odiosa severidade d’aquellas e a tolerância nociva d’esta, encontra-se o systema da vigilancia medica, que congloba admiravelmente diversos methodos prophylacticos…

  7. a capacidade de qualquer deles para descodificar e contextualizar as manobras bélicas em curso na Ucrânia

    Como poderiam eles (ou seja quem for) ter tal capacidade, quando a informação que nos chega do terreno é escassa e, de qualquer forma, pouco fiável?

      1. …e ao SAP3i disse nada.
        Mas qual ser o respeitinho ao SAP3i para não lhe aplicar azuladas ou respostas de recreio da escola? Mistério.

  8. E que tal despejá-los (compulsivamente) em Mariuopol?
    São estes tipos que definem as estratégias de defesa de Portugal?

    1. Despejá-los no lado russo, certo? Não só porque, aí, os “nossos” oficiais iriam estar entre os seus camaradas, mas também porque, francamente, os ucranianos já sofreram o quanto baste.

  9. “os critérios que levam alguns canais televisivos a eleger «especialistas em questões militares».”
    Eu acho que alguns canais já estão a escolher Generais que dizem o que gostamos de ouvir.

  10. Não sei se já repararam, mas quanto maior é o número de peritos e de especialistas que vão à televisão maior é o nosso produto interno bruto. Será coincidência?

    1. Pois aumenta. Essa gente é relativamente bem remunerada as suas remunerações contam para o PIB. Todavia, é certo que, se pusermos um funcionário público a abrir buracos inúteis e outro a tapá-los, os salários de ambos também contam para o PIB. Por tudo isto é que o valor bruto do PIB deve ser interpretado com cuidado, pois, como se vê, cabe lá muita m……

  11. Ainda bem que não estamos em guerra. Com os generais que temos capitularíamos logo no primeiro dia diante do primeiro invasor que aparecesse vestido de vermelho.

    Cobardes.

    1. Este major-general podia ser enviado como observador permanente de Portugal junto da Organização do Tratado de Segurança Colectiva, sucessora do Pacto de Varsóvia. Com carácter vitalício.
      Levava os outros com ele.

  12. 1 – Os comentários de apoio ao «regime de zelensky & batalhão azov»no aqui no “Delito de Opinião”, dominados por uma excessiva emoção e sectarismo, são inexplicáveis, perante a qualidade dos comentadores que as fazem. O que se passa?
    2 – O Zelensky é um mero peão, e um personagem que já não conta. Ao 56º dia de guerra o jogo já não tem nada a ver com este conflito na Ucrânia (ele estende-se agora para o Irão, Sérvia, Afeganistão, Turquia, Israel, Líbia, Argélia, Mali, Coreia do Norte, Japão, Taiwan, Eritreia, Iraque, Iémen, etc.).
    3 – A verdadeira guerra é contra a “globalização” e a “expansão unipolar”, que os EUA e os países Ocidentais estavam a tentar implementar no Mundo. E a derrota dessa visão unipolar é já mais do que óbvia. A China continua impávida, serena e intocável ao lado da Rússia. A China representa atualmente dois terços do comércio mundial.
    4 – O histerismo das sanções é um sinal do desespero e da derrota. As declarações dos responsáveis pela NATO/UE/EUA, plenas de dramatismo, belicismo e raiva são a demonstração da derrota dessa pretensão de um domínio imperial unipolar. Resulta de terem percebido que esse sonho foi derrotado neste conflito na Ucrânia.
    5 – Essa “globalização unipolar”, ao 56º dia de guerra, percebe-se que foi derrotada. Em vez de um bloco liderado pelos «EUA/NATO/UE», o Mundo partiu-se novamente em dois blocos. A Rússia e a China passaram a ser (seja qual for o desfecho do conflito na Ucrânia) um bloco impossível de derrotar.
    6 – Os gritos lancinantes e o histerismo dramático vêm dessa derrota, de quem sonhou um mundo unipolar globalizado e liderado pelo Ocidente … Esse sonho esboroou-se como um castelo de cartas na Ucrânia. Nem com mais armas nem com mais sanções conseguem evitar essa derrota.
    7 – Todos os países do mundo menos poderosos se acolherão sob a proteção, ora de um bloco ora do outro. Aumentando assim a escala e o poder de cada um dos dois blocos, tornando-os a ambos impossíveis de derrotar.
    8 – Em vez de lerem os jornais e os media da propaganda de ambos os lados, deviam ler as análises que estão a ser feitas nas universidades mais prestigiadas. Por exemplo, a que Charles Kupchan (professor na Georgetown University e Senior Fellow no Council on Foreign Relations, e ex-conselheiro de Barak Obama) e Constanze Stelzenmüller (do Fritz Stern Chair on Germany and Trans-Atlantic Relations, The Brookings Institution) fizeram recentemente na Conferência intitulada, “A Aliança Atlântica e a Invasão da Ucrânia”, organizada pela Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD).

    1. 3 – A verdadeira guerra é contra a “globalização” e a “expansão unipolar”, que os EUA e os países Ocidentais estavam a tentar implementar no Mundo.

      Isto não faz sentido, porque quem beneficia mais com a globalização são os países sub- e em desenvolvimento — e para onde se fazem como nunca foi feito antes transferências tecnológicas e de know-how. Ao ponto de que hoje a China ou a Índia conseguem pôr uma nave na Lua, coisa que não fariam se a globalização não tivesse ocorrido. E mesmo assim é longa a lista de recriminações contra o grande satã. Eles estão esquecidos disso, mas se o Ocidente se re-industrializar e prescindir do resto do mundo (era tão fácil e era tão bom) eles voltam a comer com pauzinhos em meia-dúzia de meses quando as tecnologias ficarem obsoletas. Isto na verdade já não vai acontecer porque as universidades ocidentais estão crivadas de estrangeiros armados de -ismos de toda a espécie que vêm aprender para depois destruir e se há coisa em que Putin tem razão é que o Ocidente está fraco — refém dos programas marxistas com que a URSS infectou a Europa e os EUA… mas em todo o caso, careful what you wish for: podemos sempre correr com eles à má-fila. Já vimos que estamos sempre a 5 minutos da maior selvajaria de que somos capazes.

      1. Esquece, que os países asiáticos e do médio oriente foram durante muito mais tempo superiores aos actuais países ditos “Ocidentais”, a nível tecnológico e cultural.
        O poder dos «impérios do Ocidente» é uma coisa muito recente, cuja duração fica vários séculos aquém deles.

        1. Você lutam contra a “globalização” em nome da soberania dos povos. Enquanto ovacionam um tirano imperialista que esmaga um povo de 44 milhões de pessoas.
          Portanto, para vocês a “globalização” já é boa se falar russo, venerar o criminoso patriarca ortodoxo de Moscovo e escrever em cirílico.

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