
28 de Setembro de 1975
«É uma pena que a barca de Caronte regresse sempre vazia ao cais da partida e Ruben A. não possa voltar por momentos ao reino dos vivos para comentar a sua própria morte, anunciada hoje em tipo miúdo na vala necrológica dos jornais. É que ninguém melhor do que ele, a propósito dessa ausência de si mesmo no palco da existência, saberia transmitir-nos o que há de absurdo, de estúpido e de pungente no desaparecimento de certas criaturas que trazem à indiferença dos dias a singularidade de um estilo desabusado, emblematicamente vivido. Por ser precisamente uma delas, um desses entes raros e insólitos que nunca deveriam deixar-nos desamparados na pobreza da nossa vulgaridade, e porque tinha o humor negro, a lucidez e a fantasia que os imortais às vezes outorgam distraidamente aos mortais, era numa das suas Páginas que ficavam bem estas lágrimas, que só ali correriam eternamente salgadas e bufas, de uns olhos ao mesmo tempo irónicos e cordiais, bárbaros e civilizados, cândidos e demoníacos, sonâmbulos e acordados. Juiz póstumo da personagem que foi, sem lhe poder corrigir um gesto sequer, mal se imagina a que profundidades desceria a sua análise implacável, e que sibilina e justa sentença lavraria no fim.»
Diário XII, de Miguel Torga

“A diferença fundamental entre mim e o Torga é que ele vê a tragédia em todas as raízes das essências, ao passo que para mim o gargalhar da ironia é permanente.” (Ruben A., em Páginas-V).
Não sei se Ruben A. teria tanta consideração (literária) por Torga, como Torga tinha por ele. Mas conheciam-se bem um ao outro, isso é certo.