Torga, 50 anos depois (22)


Pedro Correia,

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22 de Dezembro de 1975

«Portugal transformado num paradoxo ou assombrado por aldeias mortas, as silvas a apertar num abraço maninho paredes encardidas que cercaram calor humano, ou embandeirado de moradias exóticas que parecem alucinações do arco-íris. A avalanche emigratória, transplantada brutalmente para as grandes metrópoles europeias populações inteiras que nunca tinham saído do seu agro, foi catastrófica para o equilíbrio corográfico do país. Enquanto vivíamos isolados ou frequentávamos terras virgens onde construíamos à nossa imagem e semelhança, a própria paisagem nos comandava o sentido estético, a feição urbana. Havia uma exigência do natural que não permitia desmandos ao critério. E, sem termos uma arte rural surpreendente, tínhamos a graça do simples, do ingénuo, do autêntico. De repente, começámos a invadir maciçamente o mundo citadino. E, como nos faltava casticismo, segurança anímica, imunidade cultural, não resistimos ao embate. Ficámos baralhados nos sentimentos, no gosto, na sensibilidade. Degradados na própria inocência, somos hoje um mostruário de tintas e a vergonha dos olhos.»

 

Diário XII, de Miguel Torga

3 comentários em “Torga, 50 anos depois (22)”

  1. Miguel Torga e os seus pensamentos sobre a política portuguesa pós 25 de Abril (20/06/1975):
    Sobre os políticos:
    «A política é para eles (os políticos) uma promoção e, para mim, uma aflição».
    Sobre o golpe militar:
    «Golpe militar. Assim eu acreditasse nos militares».
    Sobre a Revolução:
    «Estranha revolução esta que desilude e humilha quem sempre ardentemente a desejou.
    Estamos a viver em pleno absurdo, a escrever no livro da História gatafunhos que nenhuma inteligência poderá decifrar no futuro. Todas as conjecturas têm a mesma probabilidade de acerto ou desacerto. Jogamos numa roleta de loucos, que tanto anda como desanda.
    O espectáculo que damos neste momento é o de um manicómio territorial onde enfermeiros improvisados e atrevidos submetem nove milhões de concidadãos a um electrochoque aberrante e desumano».
    Sobre a Descolonização:
    «Retorno maciço dos portugueses do ultramar. Na aflição da fuga, até de barco de pesca vieram muitos, a ponto de alguém dizer que fomos descobrir o mundo em caravelas e regressámos dele em traineiras. A fanfarronice de uns, a incapacidade de outros e a irresponsabilidade de todos deu este resultado: o fim sem grandeza de uma grande aventura. Metade de Portugal a ser o remorso da outra metade. Os judeus da diáspora ansiavam por voltar a Canaã. Povo messiânico também, mas de sentido exógeno, para nós o regresso é o exílio. A nossa Terra Prometida estava fora de Portugal.»
    Sobre a entrada de Portugal no Mercado Comum:
    «Não apoia nem tem a mínima simpatia pela União Europeia. Ela ofende o seu espírito patriótico e o seu ideal de Pátria. Insurge-se contra a ideia de subserviência às ordens de uma Europa sem valores, incapaz de entender um povo que nela sempre os teve… É o repúdio de um poeta português pela irresponsabilidade com que meia dúzia de contabilistas lhe alienaram a soberania (…) e Maastricht há-de ser uma nódoa indelével na memória da Europa».
    Sobre a Regionalização:
    «O mundo a braços com o drama das diversidades e nós, que há oitocentos anos temos a unidade nacional no território, na língua, nos costumes e na religião, vamos, desmioladamente destruí-la?»

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