Trair nem sempre é mau


Patrícia Reis,

 

 

Há muito tempo que um dos romances capitais do século XX, O Zero e o Infinito, não é reeditado em Portugal. Quando isso ocorrer, temo que suceda com esta obra-prima de Arthur Koestler o que tem acontecido com tantos filmes e tantos livros nos anos mais recentes: ser brindado com um anódino e insosso título de tradução literal, como agora é moda, roubando toda a beleza poética da tradução simbólica. Com isto quero dizer que certos títulos portugueses de obras de autores estrangeiros têm uma identidade própria, constituindo uma espécie de segunda pele da qual ninguém devia desapossá-los, sob pena de se repetir o sucedido com o romance Wuthering Heights, de Emiyl Brontë, que na clássica tradução portuguesa ficou imortalizado com um belíssimo nome: O Monte dos Vendavais. Traduções muito posteriores, e já contemporâneas, baptizaram-no das mais diversas formas – d’ O Monte dos Ventos Uivantes a O Alto dos Vendavais. Uma diferença tão gritante que nem é preciso assinalar qual destas versões é a melhor.

 

Segundo um velho aforismo, “traduzir é trair”. Mas não necessariamente. A tradução pode até superar o original. No caso dos filmes, se é manifesto o mau gosto da versão brasileira d’ O Padrinho, de Francis Ford Coppola (a que os nossos irmãos de idioma chamaram O Poderoso Chefão), já Citizen Kane, de Orson Welles, melhorou na transposição para a nossa língua: O Mundo a Seus Pés é infinitamente superior a Cidadão Kane, que seria a tradução literal, pela qual neste caso os brasileiros optaram. E se é ridículo o nome com que o Brasil brindou The Sound of Music (A Noviça Rebelde), podemos dizer que o tradutor português também neste caso melhorou o título original, chamando-lhe Música no Coração.

Certos títulos célebres de filmes de Hollywood chegaram-nos, curiosamente, por influência francesa: foi o caso de O Comboio Apitou Três Vezes, que no original se chamava High Noon. Fez-se bem, em Paris e cá, em evitar a tradução literal. Em E Tudo o Vento Levou (Gone With the Wind, no original), o E Tudo faz muita diferença – para melhor. São inúmeros os exemplos de títulos portugueses que se sobrepuseram aos originais no cinema – de O Crepúsculo dos Deuses (para Sunset Boulevard, de Billy Wilder) a Os Amigos de Alex (para The Big Chill, de Lawrence Kasdan), que até cunhou uma expressão que passou a ser generalizada. Quem disse que um bom tradutor não pode criar?

 

É por isso que receio a próxima versão portuguesa d’ O Zero e o Infinito (Darkness at Noon, no original), um livro que me marcou tanto. Não gostaria que lhe sucedesse algo semelhante a The Catcher in the Rye, de J. D. Salinger, que João Palma-Ferreira magnificamente traduziu para Uma Agulha no Palheiro e agora, com esta nossa mania de mudar o nome a tudo, se denomina À Espera no Centeio, o que não atrai ninguém. Ou o fabuloso O Triunfo dos Porcos, de George Orwell, que na nova versão da Antigona (que até é uma editora de que gosto muito) se intitula A Quinta dos Animais. Eu sei que assim é mais fiel ao original. Mas quem elege a fidelidade como suprema virtude? Se assim fosse, o Alex nunca teria amigos…

 

ADENDA: Ler Cabra Cega / Drôle de Jeu: capas. De António Pais, no Fim de Semana Alucinante.

18 comentários em “Trair nem sempre é mau”

  1. (risos)
    Nem te conto como tive de corrigir uma versão do “my love, come back to me” .. 🙂

    “ventos uivantes” é giro .. que farão os lobos nesses momentos é uma incógnita. 😉

      1. Evidente, Pedro. Não defendi, ironizei apenas.
        Até porque já perdi a conta às traduções e retroversões que fiz .. a ideia .. traduzir a ideia e não a letra ou a palavra é o mote essencial para quem quer passar a imagem original.

  2. Além de que há nesta ‘moda’ uma rasteira baixa do pior “marketing”: os editores portugueses repetem obras já antes traduzidas, mas agora repensadas para apanhar os incautos, que não reconhecem livros que têm e já leram pelos títulos!

    1. João, há muita gente que compra livros pelos títulos, sem fazer a mínima ideia do que está lá dentro. Geralmente faz isto para oferecer, confiando em que o título do livro leve uma determinada mensagem a quem o recebe de presente. É uma espécie de “literatura Cyrano”… com consequências potencialmente perigosas, se não se conhecer o conteúdo do texto. 🙂

  3. Não posso estar mais de acordo, Pedro. A criatividade de um bom tradutor, somada a uma intuição especial para títulos, pode fazer pequenos milagres. Os exemplos que apontas são bem a prova disso. Nesse capítulo os brasileiros – sempre tão bons em criatividade – costumam ser um desastre. Mas a verdade é que o efeito de um bom título tem que ver com a sensibilidade de cada povo-leitor: os portugueses gostam de títulos mais poéticos e elaborados, os brasileiros gostarão, talvez, de títulos mais fortes e directos. Será essa a razão?

    1. ‘A Noviça Rebelde’ e ‘O Poderoso Chefão’ são dois exemplos de títulos brasileiros bem ridículos, Ana. Durante décadas, Portugal e Brasil atribuiam, em regra, os mesmos títulos a livros e filmes. Depois os caminhos separaram-se e os resultados ficaram à vista. Mas há casos em que os títulos brasileiros resultam melhor. Hei-de falar disso um dia destes.

  4. ainda o ano passado andei a reler o zero e o infinito numa edição velhinha, livro de cabeceira do meu pai. o Arthur Koestler era qualquer coisa… devia fazer a zita e outros pintar a cara de preto ou, pelo menos, irem de joelhos a fátima todos os 13 de maio
    dos exemplos que dás, o mais caricato é o d’agulha no palheiro [porque raio mudaram o nome ao livro, ainda estou para perceber]

    1. Exactamente. Ainda não consegui engolir o novo nome, que me parece ridículo, d’ «A Agulha no Palheiro». Ainda por cima a tradução anterior era muito boa. E o título era incomparavelmente superior. O António Pais dá também um excelente exemplo: o clássico ‘Cabra Cega’, de Vailland. Gerações de leitores portugueses habituaram-se a este título, agora travestido para ‘Jogo Curioso’.

      1. Recordo o meu pai a dizer que, se fosse ele a traduzir “Drôle de Jeu” teria escolhido “Sacana de Jogo”. Concordo com “Cabra Cega” mas admito hoje que a interpretação do meu pai era bem curiosa, quiça, mais certeira.

  5. Belo texto, Pedro.
    Doss exemplos que refere já conhecia alguns que realmente são todos para pior.
    Na maioria dos casos que refere penso que o tradutor original conseguiu “apanhar” o espírito do filme e/ou livro.
    Estas últimas traduções são uma lástima.
    No caso que refiro no meu post é não perceber nada do que se leu.
    Gin-tonic,
    “Sacana de Jogo” também poderia dar mas para, quem como eu, jogou à Cabra Cega em miúdo sempre gostei da tradução do título.
    Cumprimentos

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