Tranquilos com Mortágua


J.M. Coutinho Ribeiro,

Quando, pela manhã desta sexta-feira, ouvi na TSF notícia das declarações que o juiz-conselheiro António Mortágua prestou, como testemunha abonatória de Pinto da Costa, em processo que corre em Vila Nova de Gaia, pensei, por momentos, que estava a ler o Inimigo Público. Ex-presidente do Conselho de Justiça da Federação Portuguesa de Futebol (actualmente no Comité de Apelo da UEFA), o magistrado esclareceu, com impressionante naturalidade, que na época futebolística de 2002/2003 era corrente "comprar" árbitros.

Suponho que Mortágua falou daquela época porque é a esse tempo que se reportam os factos imputados a Pinto da Costa. E suponho, também, que em épocas anteriores não teria sido muito diferente, ainda que possa admitir que, a partir daí, as coisas possam ter melhorado um bocado.

O magistrado foi mais longe ao discorrer sobre factos concretos de corrupção desportiva de que teve conhecimento, tudo para demonstrar a improbabilidade de Pinto da Costa ter subornado o árbitro em causa no processo, até porque o montante era baixo para os usos e costumes da época.

Pasmei. Se tais afirmações tivessem sido feitas por um qualquer desses básicos dirigentes desportivos que povoam o nosso futebol, teriam piada. Mas não. Quem assim falou foi um magistrado de um tribunal superior (ainda que jubilado), que presidiu ao tribunal máximo do futebol nacional.

Presumo que os magistrados que o ouviram na sessão de julgamento terão ficado incomodados. Presumo que os magistrados que lerem as declarações de António Mortágua não terão motivos para estarem orgulhosos de um dos seus que, tendo conhecimento de casos de corrupção, não os tenha denunciado e fale deles com tamanha naturalidade. Por fim, presumo também que qualquer cidadão que leia o que disse o conselheiro não terá razões para ficar muito sossegado. Não por causa do futebol, mas por causa da Justiça. Porque é de Justiça que se fala neste post – não é de futebol.

(A notícia no CM)

3 comentários em “Tranquilos com Mortágua”

  1. Sim, na verdade com este Mortágua e com outros seus pares, podemos estar perfeitamente tranquilos sobre a acção e a isenção da justiça…
    Este caso, (que, infelizmente, não é único), é arrepiante e nem se entende como é que este tipo de baboseiras possa ser dito com tanto à-vontade e sem qualquer tipo de consequências, atendendo à qualidade e posição de quem as profere.

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