Três vezes cem: a festa da vida


Pedro Correia,

Três centenários em destaque nos últimos dias. Lúcidos, activos, com louvável vitalidade. Celebro a vida ao felicitá-los.

 

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Começo por uma senhora: Raquel Soeiro de Brito. Foi a primeira doutorada portuguesa em Geografia e a 12.ª mulher a concluir um doutoramento em Portugal. Aconteceu em 1955. Discípula do mestre Orlando Ribeiro, atravessou o país inteiro e percorreu todas as parcelas ultramarinas – de Cabo Verde a Timor, sem esquecer Goa, Damão e Diu. Distinguiu-se pelas obras pioneiras publicadas sobre todos estes territórios e as gentes que os habitavam. Em 1957, quando eclodiu a erupção dos Capelinhos, voou para os Açores numa avioneta e chegou a entrar na cratera do vulcão, documentando o que podia em fotografia e filme. 

Conheci-a na adolescência: era visita assídua da casa dos meus pais. Lembro-a com perfil nórdico: alta, loura, elegante. Revi-a há dias nas páginas do Público a propósito do centenário do seu nascimento, festejado a 12 de Dezembro.

Continua a viajar, mesmo já tendo estado em quase toda a parte. «Ver o mundo», confessa ela à jornalista Teresa Firmino, quando esta lhe pergunta o que mais aprecia na vida. E sublinha: «A pessoa envelhece quando deixa de gostar da vida. Isso é muito mau, porque uma pessoa pode ser velha aos 100 anos, como pode ser velha aos 20.»

Uma das melhores entrevistas que li em 2025.

 

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Prossigo com um notável pensador francês, grande filósofo cujo pensamento inspira os seus contemporâneos desde a II Guerra Mundial: Edgar Morin. A 21 de Junho completou 104 anos. Mas não lhe peçam para descansar: os assuntos do mundo continuam a interessá-lo, hoje como em 1973, ano em que publicou O Paradigma Perdido, obra muito influente na minha geração. 

A vida dele dava um filme. Judeu sefardita, participou na resistência ao invasor nazi, foi adido militar de França na Alemanha ocupada do pós-guerra. Rompeu com o Partido Comunista, em que chegou a militar, e distinguiu-se desde então no combate aos totalitarismos, demarcando-se da visão marxista da sociedade e mobilizando-se em múltiplas acções cívicas. Em 2021 publicou um livro de memórias, intitulado Leçons d’un Siècle de Vie. Muito apreciado por leitores de diversas idades.

Há poucas semanas voltei a ver o nome dele. Como signatário de uma petição exigindo a libertação do escritor Boualem Sansal, detido pela ditadura argelina: objectivo concretizado. Lição de cidadania para qualquer de nós.

 

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Finalizo com imensa alegria, saudando o centenário de um actor que protagonizou o primeiro filme que vi: Dick Van Dyke, o inesquecível limpa-chaminés de Mary Poppins. Produzida por Walt Disney, esta película data de 1964: ele canta e dança com vibração contagiante, sozinho ou na companhia de Julie Andrews, que também se mantém por cá. Apagou cem velas do bolo de aniversário no dia 13 – faz hoje uma semana.

Acaba de publicar um livro sobre a receita para atingir tão provecta idade, intitulado 100 Rules for Living to 100: an Optimistic Guide to a Happy Life. Eis uma das regras: manter intacto o espírito juvenil. «Às vezes sinto que tenho novamente 15 anos», confessa. Pratica ioga, faz flexões diárias. Ri-se o mais possível – por vezes de si próprio. E conserva o hábito, iniciado há um quarto de século, de cantar com um grupo de amigos.

Está em excelente forma, ao que rezam as crónicas. «Um século não basta», gracejou. Também ele poderia dizer, fazendo coro com Raquel Soeiro de Brito, que a pessoa só envelhece quando deixa de gostar da vida.

Brindo a isso, com votos de muita saúde ao homem que me fez desejar ser limpa-chaminés quando fosse grande. E que ainda hoje me leva a cantarolar com frequência aquele estribilho que ouvi pela primeira vez aos seis anos, no balcão do saudoso cinema Monumental: «Chim chiminey, chim chiminey, chim chim cher-ee! / A sweep is as lucky as lucky can be.»

19 comentários em “Três vezes cem: a festa da vida”

  1. Que bom podermos ler coisas destas! Obrigado. Também conheço pessoas com este espírito, mas tenho dificuldade em imaginar-me neste mundo durante mais trinta anos. Oxalá estes exemplos me animem um pouco… Tento fazer a minha parte, mas…

  2. Comment peut-on avoir plusieurs identités ? Réponse : c’est en fait le
    cas commun. Chacun a l’identité de sa famille, celle de son village ou de sa
    ville, celle de sa province ou ethnie, celle de son pays, enfin celle plus vaste
    de son continent. Chacun a une identité complexe, c’est-à-dire à la fois une
    et plurielle.

    1. Sim … mas.
      Falta a outra parte da questão.
      A de a pluralidade poder ser uma não-pluralidade, ao ser apenas um conjunto de permutações e combinatórias derivado de uma mesma lógica (mentalidade, singularidade, etc.). E nesse caso aquilo que parece plural não o é.
      Essa discussão foi retomada recentemente pelo confronto de duas posições antagónicas entre Ph. Descola e Dan Spreber, que entroncam na mesma discussão havida entre Parménides e Heraclito («o que muda e o que permanece»?, «o que é diferente (novo) e o que é igual (repetição, cópia e recópia de uma mesma lógica ou paradigma)»?).
      Um dado novo veio quebrar esse impasse, em 2010, com a descoberta de um mapa cognitivo codificado na mente humana, designado por “Estrutura da Relevância» (uma estrutura que decide a priori aquilo que é relevante para ser transmitido às gerações seguintes, independente das identidades e pluralidades e independente das decisões e escolhas sociais e culturais).
      Ou seja, não basta ser plural para ser Diferente e ser uma Nova coisa. Aquilo que parece diferente e plural a maior parte das vezes não é senão o Mesmo permutado e recombinado de outro modo.

  3. Se toda a gente chegasse aos 100 anos, estávamos lixados. Não haveria Segurança Social que aguentasse.
    Que duas ou três pessoas cheguem a essa idade, não faz grande prejuízo. Mas não deve ser o objetivo da humanidade, nem sequer da maioria dela.

    1. E se o estado de saúde e sistema corporal de uma pessoa de 100 anos fosse igual à de uma de 40 anos na actualidade? A ‘reforma’ seria apenas aos 90 anos, e até lá continuava a descontar para a Segurança Social. O mesmo para o sucessivo aumento do tempo de vida, chegue ele onde chegar.
      O problema passaria a ser o controlo da natalidade, desde que não se começasse a povoar outros planetas, tal como foram povoados os territórios despovoados aqui na Terra.

      1. Caro SAPr3i…

        Para si, qual é a origem da espécie humana e porquê?

        Acha que os seres humanos vão colonizar outros planetas?

        A exobiologia existe…

        Cumprimentos.

        João Barros da Costa

      2. E se o estado de saúde e sistema corporal de uma pessoa de 100 anos fosse igual à de uma de 40 anos na actualidade? […] O problema passaria a ser o controlo da natalidade

        Exatamente.

        Se uma pessoa continuasse até aos 90 anos com o mesmo vigor sexual e reprodutivo de uma de 40, o mundo explodiria em população.

        Por isso eu digo, as coisas estão muito bem como estão, as pessoas devem morrer aos 70 ou 80 anos de idade. Querer viver mais do que isso é uma estupidez que sai cara aos próprios, aos seus familiares, e à sociedade como um todo.

        A substituição de gerações não consiste somente em ter filhos, consiste também em os idosos morrerem.

        1. Espero que seja consequente com a sua afirmação, já muitas vezes aqui repetida, e “indique” a si próprio esse caminho, quando chegar aos 70.
          Eu chego lá na próxima 3ª feira, mas não lhe faço a vontade.
          Boas Festas

          1. O Impronuncialismo espera chegar à «propriedade SAPr3i» (acrónimo de «singularidade autónoma perpétua reversível indecomponível insolúvel indestructível»).
            E não aguarda essa espera rezando ou meditando.
            Constrói-a em cada dia que passa através da matemática, física, química, engenharia e programação.
            É esse o objectivo do Impronuncialismo (ver nos dois blogs que referi o estado actual dessa construção).

          2. Não se preocupe Fernando que eu, doente como estou, tenho boa probabilidade de não alcançar os 70.
            Quanto a indicar-me a morte, penso que o Fernando, que é (creio) um bom católico, não o deve fazer.

            1. Não lhe desejo mal nenhum, antes uma pronta recuperação. Quem afirmou que as pessoas deviam morrer entre os 70 e os 80, foi você, de acordo com as(quase sempre) habituais tonteiras que por aqui deixa. Cuide-se e bom Natal.

  4. Eu vou dizer como um comentador aí em cima: que bom podermos ler coisas destas!

    É certo que o Pedro escolheu três magníficos exemplos de pessoas cujas vidas, para mais longas, acrescentaram e acrescentam sentido e qualidade à humanidade toda.
    Pena são os sacripantas centenários, que também os há, mas estou em crer que em muito menor número – falta-lhes aquela alegria interior e capacidade de criar laços que são propósitos de existência por si mesmos.

    Aos centenários sacripantas só se felicita por frete, não por celebração da vida.

  5. Centenários…

    Os seres humanos, adiante designados por unidades de carbono,
    vivem muito pouco tempo, vá-se lá saber porquê…

    As unidades de carbono são frágeis e atreitas a umas ocorrências
    a que dão o nome de “doenças”…

    A sua fisionomia é idêntica à nossa, mas é a única semelhança…

    A concepção do Tempo é completamente diferente da nossa.
    Dividiram o Tempo (que para nós é uno e indivisível) em anos,
    sendo o ano dividido em doze meses, o mês tem uma duração
    variável em dias, com um mínimo de vinte e oito e um máximo
    de trinta e um, cada dia está dividido em vinte e quatro horas,
    cada hora em sessenta minutos, cada minuto em sessenta
    segundos. Os mais picuinhas (adoro este adjectivo) dividem
    os segundos em micro-segundos. Não é incrível?!

    A “Terra”, como designam o terceiro planeta a contar do “Sol”
    (é a estrela à volta da qual orbita a “Terra”), está dividida em
    “países”. Nós estamos unidos, eles não.

    Como é que conseguem falar milhões de “línguas” e “dialectos”?
    Nós só falamos uma e chega!…
    Também usamos a telepatia direccionada. Algumas unidades
    de carbono são receptivas à telepatia. Valha-nos isso.

    Cem “anos” é uma longa vida para as unidades de carbono.
    Para nós é “dez por cento” a “um por cento” das nossas vidas.
    Nossas vidas…

    As unidades de carbono nascem, vivem e morrem.
    Nós nascemos, vivemos e regeneramo-nos.
    As nossas células regeneram-se.
    Nunca ficamos “doentes”.

    Paz…

    ARKANOR

    *******************************************************************************************************

    Centenários…

    Raquel Soeiro de Brito (cem anos) – geógrafa.
    Edgar Morin (cento e quatro anos) – filósofo.
    Dick Van Dyke (cem anos) – actor.

    Das pessoas mencionadas no texto, cruzei-me
    com o Orlando Ribeiro (falecido), ilustre geógrafo
    e professor catedrático, na Faculdade de Letras
    da Universidade de Lisboa.

    A única pessoa que eu conheci que estudou
    a erupção do vulcão dos Capelinhos (Acores)
    (1957), foi o saudoso Octávio da Veiga Ferreira,
    a pessoa mais extraordinária que eu conheci.
    Foi meu Professor no Centro Piloto de Arqueologia
    da Associação de Estudos Arqueológicos e Etnológicos
    (Palácio da Rosa, Lisboa) (o C. P. A. e a A. E. A. E. já não existem).
    O seu vasto currículo está no livro (feito em sua homenagem)

    DA PRÉ-HISTÓRIA À HISTÓRIA
    Homenagem a Octávio da Veiga Ferreira
    Joel Serrão,
    A. H. de Oliveira Marques,
    M. Conceição Monteiro Rodrigues (Comissão Organizadora)
    Vários autores*
    Editorial Delta
    Sacavém
    1987
    Nota – Muito ilustrado.
    *Conheço / conheci (alguns já faleceram) (formação) (onde conheci):
    1. Manuel Leitão (Médico) (Professor no C. P. A. da A. E. A. E.)
    2. João Luís Cardoso (Geólogo) (Serviços Geológicos de Portugal)
    3. Georges Zbyszewski (Geólogo) (Serviços Geológicos de Portugal)
    4. Carlos Penalva (Historiador) (Professor no C. P. A. da A. E. A. E.)
    5. Luís Raposo (Historiador) (Museu Nacional de Arqueologia)
    6. João Senna-Martinez (Historiador) (Lomba do Canho, Arganil)
    7. Pedro Gomes Barbosa (Historiador) (Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa)
    8. António Henrique de Oliveira Marques (Historiador) (Grémio Lusitano)
    9. José João Alves Dias (Historiador) (Grémio Lusitano)
    10. Hermenegildo Fernandes (Historiador) (Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa)
    Nota – Há mais, mas não conheço/ci. Quase todos publicaram trabalhos de Arqueologia.

    P. S.: Façam coisas extraordinárias.

    João Barros da Costa

    1. Adenda:

      O Georges Zbyszewski também estudou a erupção
      do vulcão dos Capelinhos (Ilha do Faial, Açores).

      João Barros da Costa

    2. Correcção:

      Onde se lê
      José João Alves Dias

      deve ler-se
      João José Alves Dias.

      João Barros da Costa

  6. Edgar Morin casou (pela terceira vez) com 91 anos de idade.
    Chen-Ning Yang, que morreu recentemente com 103 anos de idade, casou aos 83 com uma mulher de 29.
    Pergunto-me que farão (fizeram) eles (se alguma coisa) com as mulheres na cama. E como encararão as mulheres o facto.

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