Um ano com D. Dinis (72)


Cristina Torrão,

Em Janeiro de 1307 (não se sabe o dia) fez-se o primeiro pedido de transferência, de Lisboa para Coimbra, do Estudo Geral das Ciências, percursor da Universidade.

O Estudo Geral tinha sido fundado em Agosto de 1290, em Lisboa, através da bula De Statu Regno Portugaliae, emitida pelo papa Nicolau II. Poucos anos depois, iniciaram-se conflitos com a Casa da Moeda em relação ao terreno que D. Dinis doara para a construção do edifício, no Campo da Pedreira à Lapa, perto do Mosteiro de São Vicente de Fora. Também haveria conflitos entre os estudantes e a população de Lisboa, embora os motivos, tanto para uns, como para outros, não sejam hoje claros. No meu romance, tentei dar uma explicação plausível:

O Estudo Geral, porém, continuava a ser um problema bicudo. A contestação dos escolares aumentava, pois a Casa da Moeda instalara-se definitivamente naquele que havia sido o seu edifício e o rei ainda não conseguira disponibilizar os terrenos para a construção de um novo. As querelas descambavam, muitas vezes, em autênticas zaragatas, que se alargavam à população residente à volta do bairro dos estudantes. Estes, por seu turno, reclamavam do monarca a protecção especial que Nicolau IV lhes havia destinado. E Dinis ponderava a transferência do Estudo Geral. Custava-lhe afastá-lo de Lisboa, mas a situação tornava-se insustentável.

Considerava a hipótese de Coimbra. O Estudo Geral teria de se situar obrigatoriamente numa cidade, já que era o bispo quem concedia o grau de licenciado aos estudantes. Santarém e Leiria, por exemplo, não sendo assento episcopal, possuíam apenas o estatuto de vila. Em Portugal, havia apenas nove cidades, tantas, quantos os bispos: a Braga arquiepiscopal à cabeça, seguindo-se Lisboa, Coimbra, Porto, Lamego, Viseu, Guarda, Évora e Silves.

A transferência para Coimbra foi autorizada pelo papa Clemente V em 26 de Fevereiro de 1308. No entanto, a Universidade mudaria de local várias vezes, entre Lisboa e Coimbra, e só ficou definitivamente instalada junto ao Mondego mais de dois séculos depois da morte de D. Dinis.

À altura da Fundação do Estudo Geral das Ciências de Lisboa, já existiam as Universidades de Paris, Oxford, Cambridge, Nápoles, Pádua, Montpellier e Salamanca, todas fundadas na primeira metade do século XIII. Bolonha, a mais antiga, foi fundada ainda no século XII.

Estátua D. Dinis Coimbra.jpg

Estátua de D. Dinis, em Coimbra

5 comentários em “Um ano com D. Dinis (72)”

  1. Cara Cristina Torrão…

    O Estudo Geral existiu em Lisboa, mas não foi no local que indica.
    Não sei se conhece Lisboa, mas a placa que indica o local está
    (ou estava, não costumo passar por lá) perto da “Casa dos Bicos”,
    junto ao Campo das Cebolas, em frente ao Rio Tejo.
    Se algum dia quiser, posso mostrar-lhe a placa. Se ainda lá estiver.
    Alfama, Castelo, Madragoa, Mouraria, são zonas de Lisboa que têm
    algumas casas medievais.

    Em alguns antiquários e em alguns leilões têm sido colocados
    à venda objectos medievais. Refiro-me a Lisboa. Para as moedas,
    recomendo os leilões da Associação Numismática de Portugal
    (ex-Clube Numismático de Portugal) (Lisboa) e da Numisma (Lisboa).
    Alguns comerciantes de Numismática da Feira da Ladra (Lisboa)
    costumam ter bons exemplares de moedas medievais. Em Lisboa,
    sobretudo na zona da Baixa, existem algumas lojas de Numismática
    que também costumam ter moedas medievais.
    No Porto tem a Sociedade Portuguesa de Numismática, alguns
    antiquários e comerciantes de Numismática.
    Às vezes, nas zonas rurais, surgem moedas durante a altura em que
    os terrenos são lavrados. Moedas que podem ir da Idade do Ferro
    à actualidade.
    Algumas pessoas usavam detectores de metais. Agora é obrigatório
    ter uma licença de utilização.
    A legislação em vigor obriga a que seja feita a declaração dos achados.
    A pessoa achadora tem direito a ser ressarcida do valor do objecto achado,
    desde que o declare e o Estado queira ficar com o objecto. Se não declarar
    o objecto achado e se o objecto tiver interesse para o Estado, pode perdê-lo
    a favor do Estado.

    A melhor História de Portugal é a do Damião Peres (vários volumes).
    Comprei os meus exemplares há cerca de trinta anos, num dos leilões
    do José Manuel Rodrigues (Livraria Antiquária do Calhariz, Lisboa),
    feitos na Casa da Imprensa (Rua da Horta Seca, Lisboa).

    P. S.: A Plataforma Sapo vai deixar de ter blogues. Vai continuar a blogar?

    Cumprimentos.

    João Barros da Costa

    1. Caro João Barros da Costa,

      não conheço Lisboa ao pormenor, só lá estive algumas vezes de férias.

      Os dados que tenho sobre a origem da Universidade pertencem à biografia de D. Dinis, elaborada pelo Professor Sotto Mayor Pizarro, a primeira edição, de 2008. Não sei se, entretanto, há novos dados. Com versões mais antigas, fico sempre de pé atrás, pois, no que respeita à nossa História, há muito mito e muita crença à mistura.

      A Universidade mudou várias vezes entre Lisboa e Coimbra. Nas suas “estadias” em Lisboa, teria ficado sempre no mesmo sítio? E, se não, não haverá confusão e incerteza, quanto aos vários locais? Também pode haver essa incerteza, quanto ao primeiro local. Pois, se nem sequer se sabe, qual o verdadeiro motivo que levou D. Dinis a odenar a sua transferência…

      Obrigada pelas suas informações.

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