Um ano com D. Dinis (73)


Cristina Torrão,

Livro Dinis e Isabel.jpg

A 21 de Janeiro de 1298, D. Dinis fez de D. Isabel tutora de três dos seus filhos bastardos – Pedro Afonso, Afonso Sanches e Fernando Sanches -, para o caso de morrer antes dela e da maioridade dos filhos. Li algures que tal atitude seria um abuso, só permitido pelas qualidades de santa da rainha. Na verdade, porém, a aceitação de filhos do rei fora do casamento, pela rainha sua esposa, não era tão rara como isso, um pouco por toda a Europa. Dependia muito dos casos e das circunstâncias. Muitos desses filhos, reconhecidos pelo pai, eram educados e integrados na corte. Como vemos, já nesses tempos, a família tradicional nem sempre era o modelo. 

A vida conjugal de D. Dinis e de D. Isabel levanta algumas interrogações. Apesar de terem estado mais de quarenta anos casados, só tiveram dois filhos, nascidos nos primeiros anos da união. Especular sobre as razões, não nos leva a lado nenhum. No entanto, sabendo ser a missão principal de uma rainha gerar o herdeiro do trono e tendo conhecimento da profunda religiosidade de D. Isabel, usei a hipótese, no meu romance, de ela ter optado pelo celibato, depois de ter dado à luz o infante D. Afonso, considerando a sua missão cumprida. Notemos que a infanta D. Constança nasceu apenas um ano antes do irmão. E, depois dele, não veio mais nenhum!

Inverti, assim, um pouco os papéis. Apesar de não lhe agradarem as aventuras do marido, não era propriamente D. Isabel a pessoa mais amargurada, neste casamento. Era, sim, D. Dinis. Ao ver-se casado com uma “santa”.

 

Nota: a capa do livro de Mário Domingues serve apenas para representar o casal. É interessante verificar que D. Dinis surge aqui parecido com a reconstrução do seu rosto, feita a partir do seu crânio.

9 comentários em “Um ano com D. Dinis (73)”

  1. Esta identificação da santidade com a recusa do sexo é uma caraterística muito peculiar do cristianismo. Mas creio que nunca se estendeu a pessoas casadas, nem agora nem no tempo de D. Dinis. Ou seja, o cristianismo nunca recomendou que pessoas casadas se recusassem a fazer sexo para alcançarem a santidade. Penso eu… Acho um bocado estranha esta postura (se é que ela existiu) da Rainha Santa.

    (Houve outras rainhas santas na história da Europa. A Cristina poderia investigar se também elas tiveram poucos filhos.)

    1. Não sei se a postura existiu. Foi liberdade minha, num romance (ficção). Havia argumentos que a poderiam sustentar e achei interessante inverter os papéis, ou seja, um D. Dinis sofredor, no seu casamento, e, não, o contrário.

      Na verdade, o cristianismo recomendou a todas as pessoas casadas que prescindissem de sexo, sempre que este não se limitava à procriação e, por razões religiosas, em certos períodos e dias, por exemplo, durante toda a Quaresma, todo o Advento (quatro semanas), todas as Sextas-feiras do ano, assim como todos os Domingos e Dias Santos. Talvez até me escape mais alguma prerrogativa… Além disso, D. Isabel viveu num século extremamente rígido, do ponto de vista religioso. Os exemplos de S. Francisco de Assis e de Santa Clara influenciaram muitas pessoas da nobreza (mais mulheres) a renunciarem à riqueza e aos luxos, divulgaram-se os jejuns e o desprezo pelo corpo (não tratar das próprias doenças – mas das dos outros – desprezar a higiene). Também foi no século XIII que se criaram as ordens monásticas mais severas.

      Sim, outras rainhas que foram canonizadas tiveram mais filhos. Mas há o exemplo de Santa Elisabete de Hungria, que viveu na mesma altura e a quem aliás também se atribui um “milagre das rosas”. Depois de enviuvar, com apenas vinte e tal anos (tinha já alguns filhos) abdicou das riquezas, passou a tratar de doentes e pobres, a fazer jejuns a torto e a direito, assim como infligir-se castigos físicos. Resultado: morreu antes de chegar aos trinta, deixou os filhos órfãos e, no fundo, muitos pobres por ajudar e tratar.

    1. É realmente uma questão, por que raio Ventura não tem filhos, pelo menos legítimos. Que raio, um homem como ele, tão preocupado com a nação portuguesa, dever-se-ia preocupar com enriquecer essa nação com uma nova geração. Penso eu de que…
      Será que ele ou a mulher têm algum problema físico? Ou quererão ser santos?

  2. Cara Cristina Torrão…

    Parabéns por mais um texto interessante.

    Agora vou escolher uns “emojis” adequados
    para ilustrar o meu texto.

    – Portugal. Mal se vê, mas está lá. Existe.
    – Rei Dom Dinis. Com barba e coroa, claro.
    – Rainha “Santa” Isabel. “Santa”. Pois… Eh! Eh! Eh!
    – Papa. O chato do costume. “O sexo é só para procriar.”.
    – O Bobo da Corte. Porque rir é importante. Faz falta, não é?
    – Uma amante do Rei Dom Dinis.
    – Outra amante do Rei Dom Dinis.
    – O amante da Rainha “Santa” Isabel. As mulheres também têm direito.
    – A Infanta Dona Constança.
    – O Infante Dom Afonso.
    – O filho bastardo Pedro Afonso.
    – O filho bastardo Afonso Sanches.
    – O filho bastardo Fernando Sanches.

    Agora só falta o enredo da história…

    Cumprimentos.

    João Barros da Costa

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *