Um filme (quase) banal


Ana Vidal,

 

O que pode fazer de uma história absolutamente banal, povoada de clichés e  até de algumas incongruências, um bom filme? A resposta é simples: uma interpretação superior. É o caso de Duplo Amor, o filme que ontem vi. O argumento é, como já disse, batido:  vive de  choques de personalidade, de pressões familiares, de inadaptações sociais e do desequilíbrio – latente ou explícito – que há sempre em quem se sente asfixiado pelo mundo que o rodeia. Até aqui, nada de novo. Junte-se-lhe o eterno boy loves girl who loves another boy, a cidade de New York como cenário, as tradições e rituais de que a comunidade judaica não abdica nunca, viva onde viver. Nada de novo, ainda. Ah, mas agora atente-se no casting, que tudo ilumina e altera: Joaquin Phoenix, um dos actores mais convincentes da actualidade (dizem que este será o seu último filme, apesar da juventude) personifica na perfeição Leonard, um homem perturbado, desconfortável na sua pele, que descobre inesperadamente o amor e se entrega a esse abismo pela segunda vez com uma generosidade adolescente, depois de uma  primeira experiência traumática. Gwyneth Paltrow é uma novaiorquina sofisticada mas mergulhada em dúvidas e culpas, infeliz e desorientada, egoísta como todos os obsessivos. Isabella Rossellini é a mãe angustiada e super-protectora de Leonard, agarrada às tradições mas temendo sempre pelo filho, que adora (Moni Moshonov é o pai, com um papel mais curto mas também intenso). Finalmente, Vinessa Shaw, a namorada judia que tem a benção familiar mas não o amor incondicional de Leonard, uma actriz que eu não conhecia e me impressionou. Todos eles fazem deste filme um momento que vale a pena. À laia de rebuçado para nós, portugueses, uma surpresa boa: numa das cenas centrais do filme, a voz de Amália invade a sala, cantando Estranha forma de vida. E sabe bem ouvi-la assim inesperadamente (integrada numa banda sonora de luxo, quase toda composta por árias de óperas clássicas), como escolha de uma sensibilidade apurada e saída do mainstream de Hollywood. 

 

10 comentários em “Um filme (quase) banal”

  1. Ana, não vi o filme, mas só de saber que a voz da NOSSA AMÁLIA surge no filme, vou ver de certeza…
    A voz da AMÁLIA sabe bem ouvir em qualquer lado;))

    1. É uma surpresa simpática, Ana. Não devia espantar-nos, na verdade… a Amália é uma personagem universal. Mas estamos tão pouco habituados a ver os nossos valores reconhecidos que ficamos sempre surpreendidos quando isso acontece.

      1. É verdade Ana, pena é ,como já li algures por aqui, penso que foi o Carlos que comentou acerca do Raul Solnado, que esse reconhecimento não tenha sido feito em vida.

  2. Fiquei mesmo com vontade de vê-lo. Mas a ultraperiferilidade…

    (Gostaste do neologismo? Não o espalhes ou teremos meio mundo a dizê-la todos os dias a partir de amanhã.)

    1. Gostei muito do neologismo. Estou mesmo tentada a correr o risco sistémico de pô-lo em cima da mesa, a ver quando se transforma em paradigma. 🙂

      Só é pena ser tão difícil de pronunciar…

  3. O «Estranha forma de vida» é um fado extraordinário, mas não deixa de ser surpreendente ouvi-lo na banda sonora de num filme da indústria americana. Pelos vistos ainda há surpresas boas.

    Gostei da ligação entre o egoísmo e a obsessão. Tem razão. É mesmo assim.

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