Da minha infância guardo calorosas recordações de uns livrinhos escritos por uma autora com um belo nome que jamais esqueci: Cécile Aubry. Esses livros narravam as aventuras de Poly, um pónei, e do seu dono, um miúdo que teria a minha idade à época. As aventuras de Poly, a par dos álbuns de banda desenhada, ajudaram-me ainda em criança a ler e amar a língua francesa – o que viria a ser reforçado com a adaptação dessas histórias a uma série televisiva que me prendia a atenção dado o meu gosto de sempre por animais. O próprio filho da autora interpretava esta e uma outra série – Belle e Sébastien, em que o pequeno cavalo dava lugar a um grande cão.
Nunca mais ouvi falar em Cécile Aubry. Até esta semana, quando soube da notícia da sua morte. Antes de se dedicar à literatura infantil, como autora de grande sucesso, tinha-se destacado como actriz em filmes como Manon, de Henri-Georges Clouzot, hoje um clássico do cinema francês, e A Rosa Negra, ao lado de Tyrone Power e Orson Welles. O rosto correspondia ao nome: era uma mulher muito atraente – como se comprova pelas capas da Life e da Paris Match aqui reproduzidas – que, no entanto, não se deixou enredar nas malhas do show business.
Escrevo estas linhas e sinto que estou a discorrer sobre tempos pré-históricos: Cécile Aubry é um nome oriundo de um mundo que deixou de ser o nosso. Um mundo muito mais simples, em que uma tarde de Verão podia ser preenchida a ler exemplares da revista Tintim, romances como O Príncipe e o Pobre, de Mark Twain, ou as narrativas desta mulher que abandonou o cinema para encantar a minha geração com histórias de miúdos e dos respectivos animais de companhia.
Histórias de um mundo ainda sem computadores que deixaram um rasto de ternura imune à erosão do tempo e à voracidade de todas as modas.





Pedro
Ando a preparar um post sobre a maior perda civilizacional, a tranquilidade, e dou com este seu post sobre uma série que exemplifica esse mundo a perder-se…
Sou de uma geração anterior à sua, vi a série da Lassie e um ou dois filmes do Fúria (cavalo lindíssimo). E li “Os Cinco” e “Os Sete” da Enid Blyton.
Mas ao ler esta descrição do miúdo e do seu pónei, ou do miúdo e do seu cão, as sensações são as mesmas, parece-me. Um mundo em que as crianças ainda tinham uma certa liberdade territorial (tão importante para explorar o mundo à sua volta e desenvolver a sua imaginação e criatividade) e uma grande tranquilidade e segurança emocionais.
Hoje vemo-los “ligados” a jogos virtuais, a responder a estímulos exteriores, alheios ao verão lá fora, às aventuras e descobertas, ao convívio…
Embora não concorde que esses sejam “tempos pré-históricos” pois foi ainda ontem… é verdade que esse mundo mágico se está a perder.
Mas ainda podemos fazer alguma coisa para tentar alertar para essa enorme perda. Afinal, as crianças têm direito a viver a infância, não é?
Ana
Também viu o Mister Ed?
Ups, essa pergunta é para mim, João?
Vi, pois. Na altura nada era dobrado como hoje, ouvíamos no original. Um cavalo a falar americano era o máximo! Com as risadas colocadas cirurgicamente.
E viu “Os Vigilantes da Floresta”? E o “Chevalier de la Tempête”? E outros cavaleiros (havia muitas séries francesas) que já não me lembro do título?
E o “Zorro”? Acredita que eu tinha medo do Zorro e ele era o herói? Dava um salto sempre que ele surgia a empinar o cavalo, acredita? Era a risada geral lá em casa (snif).
E os “bonecos de ferro”, como lhes chamávamos, os “Thunderbirds”? Bons tempos…
Ana
Devemos ser de “colheitas” próximas, cara. A minha é de 55 e lembro-me bem de todas essas séries, mas isto neste blog é tudo malta jovem…
Tudo malta jovem, Fernando. A começar por mim, que sou de 51 e estou cada vez mais novo…
E ainda havia um imitador amador do Zorro: o Mascarilha.
Este post fez-me “clic” na memória, porque também me lembro da autora e da série Belle et Sébastien. Apesar de ser uma memória um pouco tremida, fiquei com aquele sorriso próprio da nostalgia pregado nos lábios. Foi bom recordar.
Tudo isto me veio à memória quando tomei conhecimento da morte da Cécile Aubry, Luísa. Lembro-me até de que um dos livro do Poly se chamava ‘Poly em Portugal’. A´série ‘Bela e Sebastião’ (tradução portuguesa) teve grande popularidade entre nós.
Velhos hábitos dificilmente morrem, pode sempre transmiti-los aos seus próximos….
Claro que sim. Também é para isso que servem os blogues. Para a partilha destas recordações.
Quem foi criança nos anos 50-60, concerteza reconhece os personagens referidos: a cadela Lassie, o cavalo Furia, o cão Rin-Tin-Tin, as series Bonanza, Robin Hood (sem o chapeu com a pluma) , e as referidas no post, das quais apenas me recordo do poney Poly.
O suave mundo em que vivemos a nossa infancia já não existe, mas é bom recorda-lo, e falar dele aos nossos filhos; no meu caso, que tenho seis, sempre o fiz, e tive a possibilidade de guardar em casa, alguns exemplares do Tin-Tin, assim como alguns Dinky Toys, e até Legos, o que lhes permite apesar de tudo perceber um bocadinho como eram esses tempos. E tambem alguns livros da minha escola primaria, entre os quais os de leitura, e a historia da 4ª classe, cuja materia eles me dizem que agora só se aprende a partir do 9º ano.
Vejo que devo sugerir-lhe a nossa série «Passado presente», através do tag “disto já não há”. Vá até ao início, que não se arrependerá.
De tudo isso temos já falado aqui, Alexandre, como o João já assinalou.
Obrigado pelo link e espero que não leve a mal ter pedido de “empréstimo” 🙂 a foto do menino com o poney
http://portugal-mundo.blogspot.com/2010/0 9/poly-em-portugal-de-cecile-aubry-1965.h tml