Pronto, está dito e assumido. Vá lá, blogueiros civilizados e sofisticados, politicamente correctos, defensores dos animais, intelectuais, zen, vegetarianos e macrobióticos e outros mais que agora não me lembro, aproveitem bem esta borla que vos dou: trucidem-me, que eu já confessei tudo. Se quiserem açoitar-me e lançar-me à fogueira, estejam à vontade. Mas não sem primeiro me darem o direito a meia dúzia de últimas palavras.
Há muitos anos que não punha os pés numa corrida de toiros e fui acumulando, com o tempo, um misto de saudade, desinteresse e expectativa, sem saber que sensações me esperariam de novo, se um dia voltasse a assistir a uma. Será que ainda vibraria com aquilo? Ou será que a minha condição de cabeça pensante, razoavelmente esclarecida e há muitos anos urbana, me teria afastado irremediavelmente da barbárie?
Foi nesse estado de espírito, inquieto e curioso, que resolvi aceitar o simpático convite de uns amigos. O desafio era total, porque nos acompanhavam duas ferozes opositoras daquele espectáculo: uma já veterana, com experiência no assunto e opinião bem calcificada, e a outra em absoluta estreia, mas firmemente decidida a odiar tudo aquilo.Mas, dizia eu, o que mais me atraiu lá foi saber o que se passaria comigo. Pois bem, agora já sei. Mal pus um pé na praça – não na arena, que ainda não enlouqueci de todo – deu-se uma estranha transfiguração em mim: o coração começou a bater mais depressa, um rubor de antecipado prazer devolveu-me as cores saudáveis da infância e uma espécie de beatífica reverência deixou-me em estado de graça, tomando-me de assalto todas as emoções. Ali estava eu, cinco sentidos alerta e prontos a vibrar ao mínimo estímulo. Neurónios? Nem um só de sentinela. Todos de férias, a banhos. Código moral? O que é isso, nome de sobremesa? Logo ao primeiro impacto me deixei embriagar pelas cores, pelos cheiros, pelo sons. Foi como se uma maléfica Mrs. Hyde, acordada de repente, tivesse dobrado em quatro e guardado no bolso, com um sorriso de triunfo, a respeitável Dra. Jekyll que costuma estar de serviço em mim. Ali, Mrs. Hyde estava em casa. E eu em transe.
Para dizer a verdade, a corrida nem sequer foi nada de especial. Pouco bravos os toiros, pouco elegantes os artistas. Pena. Mas enfim, reparei que nada mudou muito desde a longínqua última vez que tinha assistido a uma corrida de toiros. Talvez só o público tenha refinado um pouco: que não se pense que é só constituido por marialvas acéfalos. Nada disso. Lá estavam, felizes e entusiasmados como qualquer outro aficionado, respeitáveis políticos de esquerda e de direita, alguns intelectuais bem conhecidos da nossa praça, artistas e até homens da ciência, para além, claro, dos omnipresentes colunáveis da praxe.
Nada disso me interessou muito: eu estava concentrada no meu próprio sótão interior, descobrindo velhas chaves de gavetas secretas que julgava perdidas para sempre. Mas não, ali estavam elas. Enferrujadas, poeirentas, mas ainda a funcionar. Experimentava-me, punha-me à prova no meu mais íntimo laboratório, testando fórmulas antigas em pipetas fumegantes e aguardando ansiosamente os resultados. Nesse estado letárgico de semi-lucidez dei comigo a corrigir, com uma certa arrogância snobe, os comentários leigos dos urbanos que me acompanhavam: não se diz "tourada", diz-se "corrida de toiros". E aquilo não é uma capa, é um capote. Aqueles que entraram agora não são toiros, são cabrestos. Não, nenhum toiro vai para dentro sem ser pegado pelos forcados. Se a pega não puder ser de caras, será de cernelha. Se ganham muito? Não, nem um tostão. São amadores, arriscam a vida por um jantar e uma boa dose de adrenalina. O forcado não está a fazer ski, está a rabejar! Raspar no chão e berrar não são sinais de bravura num toiro, mas sim de mansidão. E entredentes, resmungava: Ignorantes!…
Não vou defender – não caio nessa! – o espectáculo a que assisti com um prazer confesso. Não é possível justificá-lo racionalmente, porque é indefensável. É uma coisa de paixão, de emoção pura. Que apela ao que há de mais primitivo e pantanoso em nós, as entranhas onde escondemos todos os nossos instintos inconfessados. Os que caem na armadilha de justificar o fenómeno, com teses mais ou menos elaboradas, acabam desarmados e enredados na sua própria teia de argumentos condenados à nascença. Ouço-os dizer que é uma tradição e que as tradições constituem a identidade de um povo, e pergunto-me porque cuidamos tão mal de outros patrimónios bem mais edificantes, como o arquitectónico e o artístico, por exemplo. Ouço-os dizer que os toiros atraem turistas e os turistas aumentam as receitas do país, e pergunto-me se será para afugentá-los depois com o caos urbanístico das nossas costas. Ouço-os dizer, com um certo orgulho, que o toiro bravo seria já uma espécie extinta se não fosse a tauromaquia (porque só serve para esse efeito) e pergunto-me se vale a pena prolongar a vida de uma espécie apenas para esse fim perverso. Ouço-os dizer, genuinamente convictos, que a dignidade do toiro é respeitada ao ser-lhe dada a oportunidade de bater-se numa arena com o toureiro, e pergunto-me quem terá ensinado ao animal o conceito humano de dignidade, com a certeza de que este trocaria, de bom grado, o presente envenenado da dignidade por um punhado de erva fresca e uma manada de vacas para se entreter. Ouço-os dizer, ainda, que os toiros bravos não sentem a dor por causa da descarga de adrenalina, e pergunto-me muito seriamente que raio de desculpa é essa, e como se pode afirmar que um ferro aguçado a entrar num corpo vivo não causa dor. Ouço-os dizer, finalmente, que os espanhóis é que são cruéis porque matam o toiro na arena e nós não, e pergunto-me em que é que isso nos iliba da crueldade e que diferença fará ao bicho o sítio da matança, se é morto na mesma.
Diz-me o cérebro (sempre que está a funcionar), que de nada nos serviu a evolução da espécie humana se ainda nos deleitamos com espectáculos que evocam e recriam os mais bárbaros rituais dos nossos antepassados. Que uma coisa é matar para sobreviver – todos os animais o fazem, afinal – e outra, bem diferente, é torturar e matar por puro gáudio. Nesse capítulo, é sabido, somos mais irracionais do que todos os outros irracionais juntos. E o que nos diz esse facto incontestável? Uma coisa muito simples, que não nos agrada nada constatar: apesar de milénios de formatação civilizacional, existe em nós um primitivismo atávico e inultrapassável, ainda que amordaçado e obrigado a hibernar à força. E que convém não ignorá-lo, porque é perigoso e está apenas latente, não morto. Mal de quem não entende isso, e não está atento aos sinais. Os desprevenidos e os que recusam aceitar a sua condição de perigo potencial, acabam muitas vezes por transformar-se num perigo real, numa bomba relógio que explode sem pré-aviso. São aqueles casos que nos entram todos os dias pela casa dentro, nos jornais televisivos, e nos deixam a colher da sopa suspensa, a meio caminho da boca: estudantes enraivecidos que abatem os colegas estupefactos a rajadas de metralhadora, só porque a namorada os traíu; mangas-de-alpaca exemplares que viram assassinos de colegas de escritório, porque não foram promovidos; mães extremosas que atiram filhos pela janela, fartas da prisão que eles significam; inofensivos velhinhos de asilo que pegam fogo ao estaminé e assistem à cena a rir à socapa, deixando cair as dentaduras; caçadores de domingo que abatem um parceiro ao fim do dia, porque não chegaram a acordo na contagem das rolas. Karl Marx insurgiu-se contra a religião, por esta ser o ópio do povo. Mas sabia bem que o povo precisa de um qualquer ópio para manter-se estável e razoavelmente dócil, suportando as rotinas e as muitas humilhações que lhe cabem sem mostrar os dentes da besta que tem lá dentro. O futebol cumpre essa mesma função cada vez mais, um pouco por todo o lado. Ali se descarregam muitos ódios e frustrações, que de outro modo poderiam ser fatalmente disparados em imprevisíveis direções. É só ver, nas multidões de adeptos, pacatos chefes de família prontos a matar pelo seu clube, em qualquer discussão sem sentido.
Somos todos voyeurs (ninguém está imune), e nada nos satisfaz tanto como a desgraça ou o ridículo dos outros. Por alguma razão nos rimos, instintivamente, quando alguém cai e se magoa. Já pensaram nisso? E nas corridas de automóveis e motos, não estamos sempre à espera de um acidentezinho para "apimentar" a coisa? Que graça teriam os campeonatos de desportos aquáticos sem meia dúzia de quedas aparatosas? Como ignorar, honestamente, essa faceta sádica e perversa que há em todos nós? É assim que somos, queiramos ou não. Exterior sofisticado, interior mais do que duvidoso. E enquanto houver emoções em nós, enquanto houver zonas de penumbra, enquanto não formos todos robots, assim continuará a ser.
Em tudo isto pensei nestes dias, tentando encontrar uma explicação para o insustentável. Porque fui a uma corrida de toiros e fiquei a conhecer-me melhor, rendo-me à evidência: tenho um Olé! nos genes que vai morrer comigo. Preciso é de tomar conta dele, para que não se reproduza.



Muito bom!
Pois eu cá adoro ir aos toiros e “não tenho medo de ninguém”;-) ;-). Acho um espectáculo … (bem, ia-me sair uma rajada de adjectivos inspirados para explicar esta sedução, mas omito essa parte para não escandalizar ninguém).
Concordo que é uma contradição civilizacional, mas há outras contradições muitíssimo – repito – mesmo muitíssimo mais graves no nosso tempo. E fala-se delas como se fossem peanuts. Nem vou ser mais explícita 😉
A racionalidade e a emoção trocam-nos as voltas todos os dias e até podemos ser hipócritas sem perceber que o somos. Mas felizmente ainda há uma escala de grandeza relativa nesse delito, não é? Ora diz-me o bom senso que no presente caso a graduação é modesta.
Gosto da tourada (portuguesa), sim senhor. E não me ralo nada;-)
É verdade, Chloé, outros atentados muito mais graves foram perigosamente banalizados, mesmo pelos que mais clamam contra este.
Hummmm… será que os do grémio anti-tourada acumulam com os movimentos pró-vida? Não sei porquê não confio muito na certeza da equivalência… Até porque os toiros são muiiiiito mais importantes 🙂
Não sei, Chloé, mas não vejo grande correspondência entre eles. Parece-me que os anti-touradas são, por definição, pouco conservadores.
Cá está a prova de que no melhor pano cai a nódoa. Brincadeira…
Genial.
Tenho acompanhado este tema e até cheguei a escrever umas linhas, no Rochedo, mas acabei por não dizer nada, até porque esta guerra não tem “dono”, pelo que cada um tem razão à sua maneira.
Este confesso mea culpa da Ana, diz na perfeição o que muitos não têm coragem de admitir.
Não são ainda meia duziasita de milhares de anos de evolução, suficientes para matar o gene de animal selvagem que já fomos.
Não é bonito ver o bicho sofrer, claro que não, mas erradiquemos primeiro a selvajaria que cometemos a nós próprios, que como a Ana muito bem diz, nos entra todos os dias pela casa dentro, em formato de telejornal.
Umas bandarilhas (é assim que se “diz”?) com velcro, ou de ventosa, era sem duvida uma excelente medida para reduzir a barbarie, mas até lá, muita tinta vai correr, muita discussão sem vencedor ou vencido vai acontecer.
Tinha 18 anos quando assisti, no Campo Pequeno a uma tourada, era assim que se chamava em 1986. Nunca mais vi nenhuma, ao vivo. Confesso que há algum tempo que tenho vontade de lá voltar. Tirando a “cagarolice” de uns quantos que por ali andam, é um espectáculo com arte.
Mesmo os mais puritanos e moralistas, lá bem no íntimo, são ferverosos adeptos da beleza que os sentidos testemunham.
Há por aí “espectáculos” bem piores.
Resolvamos esses primeiro.
Continua a poder dizer-se das duas formas, nenhuma é incorrecta. Mas quem é “do meio” diz “corrida de toiros” e não “tourada”. E também bandarilhas, farpas ou ferros. Mas no dia em que passarem a ser de velcro ou ventosa, acho que ninguém mais levará a sério este espectáculo. É como ir para a guerra com uma pistola de paintball…
Parabéns pelo excelente texto, Ana.
Quando a TV era a preto e branco eu gostava de ver as touradas. (Corrida de toiros!)
A primeira vez que fui a uma tourada vim logo embora; era horrível ver aquele sangue a escorrer do cangote do toiro.
Nunca mais vi uma tourada, nem na TV a preto e branco ou a cores.
Definitivamente não tenho genes de OLÉ!
Não veja, Virgínia. Este espectáculo tem de ser um prazer, ou não faz qualquer sentido.
Ana, estou sem palavras … emocionada.
Acabei de ler a sua “confissão”, preciso de um tempo para
poder comentar mas, para já, a legenda /nota da “ilustração” do texto diz muito sobre a pessoa que Ana é, desculpe essa minha presunção.
Um beijo
O texto é honesto, Maria. Se isso diz alguma coisa sobre mim, fico contente.
Eu não tenho “Olé” mas fui aos treinos – muito menina na ilha Terceira, toda a minha família do lado materno é de lá e a casa da minha avó era em frente à antiga praça de toiros de S.João , eu ia pela mão da minha avó, uma aficionada, aos toiros era só atravessar a rua, aliás quando não íamos víamos do balcão da casa e mesmo assim não fiquei cativa, aqui que ninguém nos ouve eu acho que foi por não ter gostado nada de ver os toureiros vestidos naqueles preparos:))
Fiquei tão “embaçada” com o seu texto, Ana, não só pela “forma” mas, sobretudo pelo “conteúdo”… Fixei-me na “nota” por já ter ouvido muita gente utilizar o Picasso/Artista para abrilhantar e ou justificar a sua afeição pela ” Festa Brava” e a Ana não fez isso – retratou a pessoa que, também, foi Picasso e isso, sim, é “honestidade”, de resto todo o texto é belíssimo, bem-haja.
Estive este Verão na Terceira e aí confirmei mais uma vez a presença do meu gene, Maria. Vibrei com os toiros à corda e não descansei enquanto não me fiz convidada de uma simpática família que morava na rua onde eles andavam nesse dia. Uma delícia. 🙂
Vá lá que ainda te vi entre dois touros. Salvo seja. Hehe…
É melhor entre dois touros do que à frente deles. Isso nunca verás, que tenho pavor…
As touradas à corda na Terceira eram uma loucura, no meu tempo (há muito que não assisto) e as pessoas são muito simpáticas por lá, realmente, os terceirenses são muito diferentes dos micaelenses, mais alegres e extrovertidos – foram eles que lutaram pela sua independência, durante a “dinastia dos Filipina”, expulsando os Espanhóis – ficou-lhes – “el salero”.:))
Excelente reflexão, Ana, mesmo detestando eu tourada e touros. Os meus genes não têm definitivamente um Olé 🙂
Sorte tua, provavelmente.
Andas a desafiar a sorte: eu disse que não deixaria que te crucificassem, mas não falei em trucidar, açoitar e lançar à fogueira…
(Ganda texto, sua aficionada perdida!)
Eu sei, eu sei, estou a pedir de mais… mas olha, parece que me safei.
🙂
É obra: sai-te uma reflexão destas a partir de um conjunto de actuações fraquinhas, como aliás é norma em Portugal. Imagino só que texto não escreverias se tivesses visto o José Tomás em Las Ventas…
Só não percebo por que motivo pessoas que ‘odeiam’ corridas de toiros vão assistir a um espectáculo destes, com tão bons filmes em exibição nas nossas salas.
Já vi corridas inesquecíveis, Pedro. E tu também, pelo que leio… gosto de saber que não vou sozinha para a fogueira.
Também o sinto, esse olé nos genes. Foi mais uma descoberta da minha “lusitanidade”, descoberta forçada pela saída para o estrangeiro.
Parabéns pelo texto.
Acontece muito, Pitucha. É a nostalgia que vem com a distância de um país que criticamos sempre, mas é a nossa casa…
Belo texto.
Já agora, a tourada é positiva em termos de conservação da natureza, não por causa da criação dos toiros em si (os toiros não são uma espécie ameaçada, de forma nenhuma – são apenas os machos das vacas!), mas sim porque essa criação de toiros bravos exige o pastoreio em grandes espaços incultos, o que por sua vez preserva uma grande quantidade de habitats. Se não se criasse toiros bravos provavelmente esses espaços seriam entregues a formas de agricultura intensiva, prejudiciais em termos de conservação da natureza.
É verdade que o toiro bravo (fêmeas incluídas na designação) não tem outra finalidade a não ser a tauromaquia. Como carne não é rentável, há outras raças que rendem muito mais em muito menos tempo. Mas esse argumento dos pastos que preservam habitats é importante, de facto.
Olé, olé, olé, guapa!
🙂
Em boa hora escrevi ontem aquele post polémico, Ana. Se o não tivesse feito, teria perdido a oportunidade de saborear um dos mais belos textos que já li sobre as touradas ( corridas de toiros? Nããã!)
Expressas de uma forma muito racional um prazer que reconheces irracional. Poderia glosar muito em volta do texto, mas fico-me por aqui. As paixões não se contrariam. Espera-se que amoleçam. Ou se revitalizem, como foi o teu caso.
Obrigada pela compreensão, a ti em especial.
Eu gosto de toiros , de touradas e de todo esse mundo…e já fui aos touros de morte e comi o touro…e agora??? Vão bater-me todos os que são contra isso??? :)))
Todos os que comem carne de talho já comeram touro bravo, Ana. Embora muitos nunca tenham pensado nisso.
Exactamente Ana…e na minha opinião, depois duma tourada, mais vale matar logo o touro do que o deixar a sofrer…mais vale ir logo para o matadouro…Não percebo o porque de tanto alarido se vamos ao talho comprar os bifinhos e as costeletas…não sabemos o que aconteceu ao bicho… mas esta é a minha opinião,que vale o que vale. 🙂
Beijinho
Que lindo texto, Ana. Parabéns e obrigada.
Olé!
:))
🙂
Agradeço a todos ter saído viva e pouco chamuscada (não me atrevo a dizer “em ombros”…) deste meu acto de fé.
Confesso que depois desta corrida já reincidi, mais do que uma vez. E continuo a gostar, embora mantenha o meu gene Olé debaixo de olho…
Olá Ana,
Num recente artigo publicado no suplemento do fim de semana do jornal i a propósito da ultima tourada ( prefiro este nome) na praça de Barcelona, dizia-se que aproximadamente 75% dos espanhois não concordavam ou gostavam do touradas. Mas esses mesmos espanhois nunca aceitariam que acabassem com este espectáculo pois isso lhes roubaria parte importante da sua cultura e da sua história.
Não sou grande apreciador de touradas, sobretudo da portuguesa não deixando de reconhecer que a tourada espanhola é por vezes uma autêntica “sangueira”.
Será sempre uma eterna discussão entre os seus defensores e os que a criticam, como o será sempre a discussão sobre a caça e os caçadores. Numa Europa e num país cada vez mais insípido e “desenxabido”, prefiro ficar com as minhas memórias desses ambientes passados em dias solarengos nas lezirias ribatejanas ou nas planícies alentejanas.
Olá Paulo, que surpresa! Gosto muito de vê-lo por aqui.
Não acredito muito nessa percentagem tão alta, a não ser na Catalunha. Mas como refere a praça de Barcelona, deve ser esse o universo da sondagem.
Na corrida portuguesa gosto do toureio a cavalo e das pegas, na espanhola prefiro o toureio a pé (que é incomparavelmente melhor do que o nosso). Mas numa coisa estamos de acordo: a ditadura do politicamente correcto e a normalização de costumes na Europa de hoje tirou muita cor às tradições locais, sobretudo nos países considerados mais “atrasados”, como é o nosso caso.
Também guardo boas memórias do Ribatejo e do Alentejo, e recuso ter de separar-me delas. Fazem parte de mim.
Apareça sempre.
Um texto bravo, Ana! Existe um primitivismo atávico em todos nós, concordo. Mas discordo que seja inultrapassável. Isso não significa que não compreenda certas atracções por certos espectáculos. No caso que aborda, não tanto pelo combate que se trava na arena, como pela emoção que é viver emoções no colectivo. As multidões, em reacções uníssonas de carácter festivo ou religioso, sempre me comoveram, mesmo se tenho um medo danado delas. ;-D
As emoções colectivas são temíveis, concordo. Mas, talvez por isso mesmo, são especialmente empolgantes.
Nem de propósito, Luísa: falámos deste assunto há dias, e depois disso chego aqui e o Carlos provoca-me com o post dele… pronto, não resisti.
🙂
Ai, ai (suspiro) 🙂
Mesmo fora da temporada, uma série sobre corridas era coisa para nos aquecer no interminável inverno que já nos ameaça 🙁
Com sub-séries sobre Cavaleiros, Forcados, ganadarias, toureio a pé… Praças de toiros, dinastias… Espanha, Portugal, Aix en Provence , México…
Enfim, muita matéria e uma autêntica lança em África 🙂
Aí é que era o verdadeiro delito de opinião no seu melhor!
Não arrisco tanto, Chloé. Acho que até os meus queridos delituosos me excomungavam de vez, quanto mais os comentadores!
o que eu tenho nos genes é um olá, um magnum, um double caramelo, de preferência. será que no meio de tanta beleza, tanto salero, tanto aficionado, tanta coragem, tanta nobreza, irei presa por ter genes tão gulosos?
zoe
Desses também há por aqui, zoe. E são ainda mais mortíferos do que o outro…
Gostei muito do teu post, Ana, apesar de não ter olé nos genes (pelas razões que tão bem soubeste enumerar).
Eu sou meia ribatejana de origem, Teresa. O raio do gene olé infiltrou-se à socapa, e por cá ficou…
Obrigada.
🙂
Os olhos dos tigres
(Por Manuel António Pina. In “Jornal de Notícias”, 21 de Outubro de 2009, http://jn.sapo.pt/Opiniao/default.aspx?o piniao=Manuel Ant%F3nio Pina)
Quando era criança e me levavam ao circo, o que mais me afligia eram os olhos dos tigres. Os olhos assustados e resignados dos macacos, os olhos sem vida de leões e elefantes, os dos cavalos aos círculos na pista, rasos e desorbitados como os dos cavalos dos carrosséis, os das esquálidas pequenas trapezistas, metidas em surrados fatos de lantejoulas e fixando vaziamente um ponto abstracto acima das nossas cabeças enquanto agradeciam, hirtas, os aplausos, entristeciam-me.
Mas nos dos tigres havia impotência e orgulho ferido, como se estivessem enclausurados dentro de si e não coubessem dentro de si. Sentia que nos desprezavam e que desprezavam a parte de si que, às ordens do domador, subia e descia ridículos escadotes ou saltava mecanicamente através de arcos em chamas. E culpava-me por assistir ao penoso espectáculo da sua humilhação, imaginando que deviam (com razão) odiar-nos. A lei que finalmente aponta para o fim do abuso de animais nos circos acaba com um espectáculo tão humilhante para os animais quanto para quem (como acontece igualmente nas touradas) se compraz com a sua humilhação.
Excelente texto do Manuel António Pina, Fernando. Como sempre.
Abraço
Caro Fernando Sousa,
Concordo que o texto do Manuel António Pina é muito poético e belíssimo, literariamente falando. Mas incorre no mesmo erro de base dos argumentos daqueles que defendem “a dignidade” do touro, e por isso me merece o mesmo comentário que apliquei aos primeiros: tanto a dignidade como a humilhação (vistos como sentimentos que elevam ou diminuem) são conceitos humanos. Aos animais – sejam ratos ou tigres – não se aplicam. E não posso deixar de sorrir ao constatar que o Manuel António Pina, como eu ou qualquer um de nós, é sensível à estética e ao romantismo na sua classificação dos animais: de facto, um belo e altivo tigre de Bengala inspira-nos mais respeito e pena – numa situação de “humilhação” – do que um macaco ou um cãozinho amestrado, por muita ternura que sintamos pelos dois últimos. O “orgulho ferido” está na nossa cabeça ou no nosso remorso, porque o consideramos um animal nobre e belo e instintivamente lhe atribuímos sentimentos humanos. É a mesma injustiça que aplicamos quando nos revoltamos perante a matança de um ágil e elegante gamo mas ficamos indiferentes à de um javali, só porque este é feio e bruto e potencialmente perigoso.
Pergunto: o gamo vale mais de que o javali, numa avaliação isenta de quem defenda intransigentemente os direitos dos animais? O tigre vale mais de que um rato de laboratório? Ou de que um frango? Ou de que um pombo, desses que infestam as cidades? Por esse prisma, todo e qualquer acto de retirar um animal do seu habitat natural para servir interesses humanos – seja esse habitat uma quinta ou a selva amazónica – deve então ser considerado um acto de violência contra esse animal. Acabemos, então, com os aviários (onde galinhas nascem e procriam debaixo de uma lâmpada toda uma vida, com o único propósito de alimentar humanos), com os aquários, as pocilgas, as cavalariças e estrebarias, as vacarias, as gaiolas de pássaros etc ., etc , etc . E o que dizer dos zoos, cheios de animais selvagens? Nem sequer vale a pena mencionar espécies em extinção, bastam as mais vulgares, com que nos cruzamos todos os dias e às quais já somos completamente indiferentes.
Defender os animais tem muito que se lhe diga. Temos sempre de fugir às nossas próprias fraquezas para sermos totalmente justos…
Neste texto limito-me a admitir que não sou perfeita, e que as minhas emoções (consideremo-las o o meu lado irracional, e façamos figas para que não me leia o nosso ilustre António Damásio) pesa ainda bastante nos meus julgamentos, quer eu queira quer não. É muito mais fácil, acredite, escrever belos textos sobre os olhos dos tigres enquanto se saboreia um bom bife (não é uma indirecta para o Manuel António Pina, que até pode não ter animais de estimação, nunca ter iso ao oceanário e ser vegetariano.).
Cara Ana
Antes de mais, um pedido de desculpas por nao ter comentado o seu texto antes. Quis lê-lo de forma pausada e tentar entender o seu conteúdo, nao quis comentá-lo a quente num intervalo qualquer entre duas tarefas laborais.
Os meus parabéns. Expoe com clareza o seu ponto de vista, a sua “irracionalidade primitiva” que assume com coragem. Mais contributos deste nivel seriam necessarios para aprofundar o debate em torno destas matérias, em concreto, sobre os direitos dos animais e sobre este tipo de espectáculos.
No entanto, nao posso compreender o prazer que considera ser aceitável ao ver o sofrimento do touro, creio também pelo factor tradiçao e por nao ser algo (ainda) socialmente repugnante. Pegando nesse principio, nao deveriamos entao legalizar lutas de caes? Eles seriam bem tratados, seriam campeoes ou perdedores enterrados, teriam o seu espaço, teriam a companhia permanente dos seus treinadores… Os melhores procriariam a seu bel prazer.
Seria cruel? Injusto? Horripilante? demonstraria que como sociedade estaríamos condenado ao fatalismo da barbárie? sim. mas creio, se bem li, que é isso a que estamos condenados: a uma barbárie reprimida que só se solta pontualmente, a bem da civilizaçao.
Eu também concordo que temos este instinto, TODOS, mas acredito que o caminho é a sua repressao consciente, enquanto sociedade, para podermos evoluir culturalmente para uma sociedade onde a dor provoque em nós dor, o sofrimento provoque em nós sofrimento e nao alegria e resplandecimento. Pode ser que seja ingénuo e acredite demasiado no Homem, mas nao me tire este meu prazerzinho…
Claro que lhe dou razão: devemos caminhar para uma sociedade ideal, ou pelo menos tê-la como objectivo. Mas estamos longe disso, caro Rafael, e é bem melhor que o admitamos. As leis da natureza (entre as quais a lei do mais forte é talvez a mais importante) ainda nos dominam. Ainda há cinco minutos (na escala cósmica) andávamos de gatas…
Não quero tirar-lhe o prazer de acreditar no Homem, até porque eu também acredito. Moderadamente, ou mais moderadamente do que já acreditei, pelo menos. Nos animais, sim, acredito: cumprem a sua natureza sem artificialismos civilizacionais e por isso mesmo são mais previsíveis. Logo, mais fiáveis.
E para quem gosta do tema, a não perder a exposição de Pintura, fotografia e gravura “Ao redor do Touro” na Galeria Vieira Portuense.
Obrigada pela dica, Fátima.