Um século: nove vezes nove


Patrícia Reis,

 

 

Quantas surpresas nos reserva a voragem do tempo? Se em 1909 alguém pudesse espreitar numa bola de cristal o que aconteceria década a década nos cem anos seguintes, jamais acreditaria que um século iniciado sob o signo do optimismo e na fé inquebrantável no progresso fosse afinal aquele que mais semeou de sangue e pavor a espécie humana. Ninguém imaginava então que algumas das nações do globo mais beneficiadas pelo desenvolvimento material e espiritual fossem as primeiras onde se assistiria à derrocada de todos os valores. Em nome de Deus, da pátria, de uma raça ou de um partido.

Alguma coisa pudemos aprender nesta dolorosa caminhada de cem anos? Certamente. Eis a principal: o progresso das mentalidades não acompanha as inovações de carácter técnico e científico nem garante ao ser humano uma auto-estrada sem declives. Nem a História terminou na batalha de Austerlitz, como pretendia Hegel, nem as páginas da vida são comparáveis ao roteiro de um filme de Frank Capra, garantidamente com um final feliz.

Passemos em revista alguns dos principais acontecimentos deste século – sempre em anos terminados no algarismo 9. Dizem os chineses que é garantia de poder. Resta saber para fazer o quê.

 

1919. Dos escombros da Grande Guerra, nascia o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, liderado por um cabo chamado Adolf Hitler. Milhões morriam com a gripe pneumónica, outros tantos irrompiam gaseados das trincheiras. Extinguia-se a crença inabalável no progresso, os demónios andavam à solta no século XX.

1929. A mais brutal derrocada do sonho capitalista consumava-se numa segunda-feira negra de Outubro, com o colapso da Bolsa em Wall Street. A prosperidade que se vivera até aí era tão volátil e efémera como as bolhas nas taças de champanhe ao ritmo do charlston, atmosfera tão bem retratada n’ O Grande Gatsby, de Scott Fitzgerald.

1939. Voltavam a soar os canhões numa Europa que mal cicatrizara as feridas da anterior guerra. Desta vez o confronto bélico seria ainda mais sangrento. E pela primeira vez um aparelho de Estado assumia a meta do morticínio em massa, com a Alemanha nazi apostada na aniquilação dos judeus. O saldo foi catastrófico: 70 milhões de mortos, sepultados sob o silêncio e as cinzas da era atómica.

1949. Ano áureo da política de blocos, dispersa em várias frentes – da China onde triunfava a ditadura maoísta a Berlim, cidade sitiada no coração da Europa. Estaline mandava deflagrar a primeira bomba nuclear soviética enquanto os americanos faziam emergir a NATO. Houve quem lhe chamasse o ‘equilíbrio do terror’. Muito justamente.

1959. Contra a política de blocos, surgia o mito do Terceiro Mundo. Anticolonialista, anticapitalista, desalinhado. Triunfava a revolução cubana, que conduziu os barbudos de Fidel Castro, sob a ovação de milhares de cubanos, numa marcha triunfal rumo a Havana. Era afinal uma ditadura que se sucedia a outras, de sinal contrário. O Terceiro Mundo permanecia agrilhoado.

1969. Um raio de esperança: dois tripulantes da Apolo XI deixavam as primeiras pegadas no solo lunar. “É um pequeno passo para o homem mas um passo de gigante para a humanidade”, sentenciou Neil Armstrong, o Vasco da Gama do espaço sideral. Na Terra, os homens continuavam a matar-se por uns metros quadrados de chão – do Biafra à Indochina.

1979. O milenar império persa caía como um castelo de cartas sob a pressão dos estudantes fanatizados, às ordens de un clérigo medieval. Khomeiny, o imã que pregava a guerra santa contra a decadência ocidental, era levado em ombros na cosmopolita Teerão, tornada prisioneira do islamismo mais fanático.

1989. Uma nova etapa despontava a Leste com a queda abrupta dos regimes opressores que prometeram libertar o homem para melhor o subjugarem nas malhas do socialismo real. Caía o muro da vergonha em Berlim. Mas a Primavera chinesa era afogada em sangue. Para a História ficou aquele herói solitário que enfrentou de mãos nuas uma coluna de tanques em Tiananmen. Nunca ninguém soube o seu nome.

1999. Ruíam outros mitos – o da soberania plena, o da ‘independência nacional’, o da fortaleza monetária. Ditava-se o direito de ingerência em Sarajevo e começava a circular o euro – símbolos de uma Europa sem fronteiras. Renascia a fugaz ilusão do progresso humano. Mas o 11 de Setembro espreitava já ali, noutra trágica esquina da História.

6 comentários em “Um século: nove vezes nove”

  1. Excelente, Pedro.
    Em 2009, a provável agudização de uma crise social global, novamente resultante de um colapso em Wall Street, poderia indicar que estaria a fechar-se um ciclo pra o mundo. Mas nunca foi assim fácil. Se o Homem vier a entrar em novo ciclo, o túnel continuará certamente a ser escuro…

  2. Excelente, Pedro!
    Lá no Rochedo estou a fazer a análise, por capítulos, de cada um dos anos do século passado, terminado em 9. Uma tentativa de exorcizar medos porque, afinal, tirando o factor globalização, nada do que está a acontecer hoje em dia constitui grande novidade. Desejam-se, porém, soluções diferentes.

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