Não sei se o novo romance de Giscard d’Estaing é uma catarse ou a fantasia de um octogenário. No primeiro caso estamos perante uma inconfidência, nem mais nem menos deselegante do que qualquer inconfidência colorida por tintas romanescas assinada pelos astros de Hollywood. Se é de fantasia que se trata, pior ainda, pois insinua um caso amoroso que nunca aconteceu com uma figura pública que já cá não está para o desmentir. Contudo, A Princesa e o Presiente, o livro sobre o seu hipotético affaire com a princesa Diana de Gales, tem sido acolhido com a maior simpatia.
Celebrando o vigor intelectual do antigo presidente francês, revistas e jornais têm tratado o autor com a cortesia que sempre se lhe reconheceu. Um cavalheiro. Um cavalheiro com uma bela reputação de namoradeiro. Senhoras, madames e por que não afinal princesas, passaram-lhe pelos braços. Como não receber com cumplicidade enternecida esta última obra de um velho sedutor?
A editora, que vai facturar à grande e à francesa, está exultante, o público curioso. É verdade que há uma regra que diz que um cavalheiro nunca deve gabar-se em público das suas conquistas, e muito menos das que não fez. Mas que diabo, a princesa já está morta e não era um troféu qualquer. Aos velhos caçadores, eternos meninos rabinos, perdoa-se tudo.
Lamento, mas por mim este príncipe bem pode limpar as mãos à parede.

Ora aqui está um rico exemplo da ética republicana!
E aproveitar esta deixa para bater nos republicanos será… desonestidade intelectual monárquica?
É capaz de ter razão Teresa, e com a República no estado em que anda, talvez seja até bater no ceguinho, mas que fazer? Oportunidades, são oportunidades 🙂
Pedro, foi muito nobre este seu acto de contrição 🙂
À princesa Diana foram atribuídos muitos affairs com figuras de destaque (estou a lembrar-me, por exemplo, do rei de Espanha) mas, tirando aquele “piqueno” inglês que se fartou de facturar à conta das inconfidências sobre o seu romance com ela – coisa que lhe valeu uma eterna desclassificação social, até porque era tudo verdade e ela o admitiu – não conheço nenhum outro que tenha tido essa falta de cavalheirismo e de ética.
Giscard d’Estaing, como dizes e muito bem, bem pode limpar as mãos à parede. Sendo verdade ou não, tanto faz.
Pois. Em qualquer caso não fica bem no retrato.
Agora podem inventar tudo, porque não vale a pena, a protagonista principal já morreu…
O que é de muito mau gosto, Ana. Esperava mais elegância deste senhor.
Nem depois de morta a mulher tem sossego…:)
E espero que seja numa parede dele, porque não há-de ficar bonita.
Tapemos o nariz.
O plural de madame é mesdames. Quanto ao resto, “honni soit qui mal y pense!”
Obrigada pela correcção, José-Catarino. Podia ter sido distracção, mas no caso foi mesmo intencional.
Tem toda a razão; o uso intencional é bem realçado pelo itálico, em que eu não reparei, e devia ter reparado. As minhas desculpas pela precipitação.
Totalmente de acordo consigo, Teresa. E estou com o João. O princês que limpe as mãos a uma parede bem longe.
Surpreendeu-me, Mike. Não combina com a imagem que sempre deu de si próprio.
Cheira-me que o princês se inspirou no Berlusconni, que deve ser o seu modelo de virtudes.
Como deves calculçar, detesto o Berlusconi, mas reconheço-lhe um mérito: ao menos não engana ninguém.
Teresa, mutatis mutandis e numa escala não só de outro teor como muito mais pequena, Miguel Sousa Tavares fez o mesmo. No último livro, que eu não li ( e convém que isso fique aqui escrito não vá o autor exigir-me públicas desculpas como já o fez a propósito de outro assunto) mas pedi a quem mo lesse quando me constou que 100 000 exemplares foram vendidos em 20 dias, faz-se coisa do mesmo género. A narrativa da viagem ao deserto é feita a duas vozes, sendo que uma delas é a de alguém que, infelizmente, já está morta e não pode vir refutar seja o que for, não pode vir dizer que que nunca sentiu, nunca disse, nunca pensou aquilo que ele lhe atribui. A Sofia Vieira já dedicou um post a este assunto no Controversa Maresia e não me parece que a questão venal seja de somenos importância. 100000 exemplares são 100000 exemplares. Eles lá sabem por que escrevem estas coisas. Enfim, cada um faz sombra no mar com os cavalos que tem. Lamentável é que seja em mares mortos
Também não li esse livro, Ivone. Foi apresentado como uma homenagem e mais não sei. No caso de Giscard d’Estaing não há ponta por onde se lhe possa pegar. A insinuação, tenha ou não fundamento, é de péssimo gosto.