Uma história em três tempos


João Carvalho,

1. Chama-se José Miguel Fernandes e presidia à Entidade das Contas dos Partidos, uma instituição posta a funcionar na dependência formal do Tribunal Constitucional. Há poucos meses e com assinalável sobriedade, disse qualquer coisa mais ou menos assim (e estou a citar de memória): com a legislação e os meios existentes, pode conseguir-se melhorar, mas nunca se acabará com a possibilidade de corrupção em torno das contas dos partidos.

2. No dia seguinte, em nome do PS, Vitalino Canas foi desabrido e desproporcionado a dar para trás naquela simples declaração, chegando ao ponto de dizer que o presidente daquela instituição devia era trabalhar, porque era para isso que lhe pagavam. Poucos dias depois, José Miguel Fernandes (que tinha começado a sua acção pela pedagogia) demitia-se e batia com a porta.

3. Recentemente, soube-se que houve candidaturas a não-sei-que-eleições com contas irregulares, mas que os casos foram arquivados sem consequências. Quer dizer que não há cidadãos acima da lei, excepto se forem candidatos? Não sei. O que sei é que, se a legislação serve para coisa nenhuma, Vitalino Canas devia ter reaparecido — mas não reapareceu — para pedir publicamente desculpas a José Miguel Fernandes. O incrível porta-voz do PS quis protagonizar um enxovalho pouco edificante e não reconhece que se saiu mal. Entende-se o incómodo: como diria a minha avó, «foi à lã e voltou tosquiado».

5 comentários em “Uma história em três tempos”

  1. Bem… há muito que nas contas dos partidos são assinaladas pelo T.C. maiores ou menores irregularidades e que eu tenha dado por isso nada aconteceu.

  2. O ambiente selvagem
    na lusitana democracia,
    conduzirá à voragem
    da política iliteracia.

    A discricionariedade legislativa
    dos directórios partidários,
    favorece a acção corporativa
    de meia dúzia de beneficiários.

  3. Como te tenho dito Vitalino Canas tem muitas qualidades, mesmo como jurista, mas a comunicação não é de todo uma delas. Não percebo como o PS persiste neste erro…

    1. Pois, André, deve ter qualidades, mas consegue escondê-las bem com estas cenas. Esta, então, foi das mais tristes de que me lembro, quer pela desproporção, quer pelas palavras. Até pelo visado, que é pessoa vertical que não merecia, tenho a certeza, aquele enxovalho tipo mãos nas ancas. Nada edificante.

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