Fui ver a Tosca ao Coliseu, no Porto, um espectáculo com uma realização de tal modo do tipo para-quem-é-bacalhau-basta que os cantores se passeavam de microfone. Fiquei a pensar que, se é assim, eu dava um Mário Cavaradossi muito aceitável. Haveria decerto espectadores que se perguntariam se era o Cavaradossi ou o avô dele, mas quero lá saber: escolhia eu a Tosca, na cena do beijo não disfarçava, a soprano ficava sem respiração e, no fim, os espectadores confessar-se-iam conquistados pela qualidade da representação.
Mas não é propriamente da ópera que quero falar. Sucedeu que ia de gabardine e chapéu (este último conferindo um toque de distinção que, por modéstia, não desejo sublinhar) e pretendi depositar tais peças no vestiário. Que não senhor, disse-me a simpática menina: nem gabardines nem chapéus nem bolsas. E efectivamente o que se via ali arrumado eram apenas guarda-chuvas. De modo que lá me sentei na plateia (lugares de cadeiras de orquestra, que sou pessoa de meios – 55 Euros, olaré), a gabardine e o chapéu no colo. Começada a peça, logo me dei conta que a recolha dos guarda-chuvas molhados terá sido um exagero de precaução, visto que os cantores se apresentavam de botas altas que pareciam galochas, portanto devidamente protegidos de águas insidiosas.
Não me vou dar ao trabalho de escrever à direcção do Coliseu. Aquilo parece que era patrocinado pela Ageas Seguros, o que quer dizer que a resposta viria, se viesse, em língua de pau, que é o dialecto em que se exprimem as seguradoras.
De modo que dou de conselho a quem queira lá ir que leve um casaquinho de malha, nada de complicações. Vá de Uber ou de táxi porque na garagem mesmo em frente sobe-se e desce-se pela mesma rampa, o que significa que quem quer entrar espera, e desespera, chegando à Ópera em estado de grande exaltação.
O Porto é uma nação.

Também desejo esse dia, em que não se necessitará de arrastar atrás de nós o corpo hominídeo herdado da animalidade natural.
O dia em que o ‘nós’ (o ‘eu’) enviará um avatar, que fará voar aquilo que de facto somos.
Julgo que não deixaríamos de continuar a sentir, a chorar, a rir, e a nos emocionarmos.
Ó SAP3i, não percebi a ponta de um corno, de modo que nem sei se devo agradecer ou ficar indignado.
José Meireles Graça,
Elogiei, no texto, a capacidade de separar o corpo (as vicissitudes por que passou) do sentimento da coisa usufruída. De, apesar desse sofrimento, não deixar de ter assitido.
Logo, a interrogação que de imediato me veio, foi a de perguntar a mim-mesmo, que parte do ser-humano assistiu à ópera.
Ou seja: o vestiário não é para vestuário.
“(este último conferindo um toque de distinção…)”
Por acaso é isso mesmo que se pensa quando se vê um gajo de chapéu numa plateia em 2025, distinção…
Como é evidente o chapéu era para ser, e foi, usado apenas na rua, como habitualmente. Julguei que era desnecessário esclarecer esse pormenor. Mas como refiro no texto que o pretendi deixar no vestiário, resulta que não era para usar na plateia, detalhe que também lhe terá passado despercebido. Como aliás o significado do texto todo, que todavia não vou explicar porque tenho fortes suspeitas de que não entenderia a explicação.
Faz bem, o Carlos Sousa nunca entende nada.
Mas tem a mania que tem graça.
Um triste.
Ah, sim, o chapéu. E o vestiário. E a sua profunda e insondável sabedoria sobre a vida na rua e no espetáculo.
Por acaso o único pormenor que me passou despercebido foi a sua humildade. Acha mesmo que, se o texto tivesse algo para entender, o conseguiria manter em segredo?
Realmente eu não entenderia a explicação assim como também não entendo a sua necessidade de parecer o último sábio da Terra quando escreve sobre um assunto tão inútil. Não seria melhor poupar o trabalho e a tinta?
Não foi trabalho nenhum, por quem é, a poupança não seria grande. E depois desperdiçava a oportunidade de ter acesso às suas interessantes observações. Só por isso já valeu a pena.
O problema são as senhoras, contrariamente aos cavalheiros, não tiram o chapéu em nenhuma
circunstância. Se tem o azar de ter uma
á sua frente está tramado , meu caro .
😜😂
Kika sejamos sinceros, um cavalheiro com a sua dignidade (e a testa à vista) vale sempre mais que uma mulher na plateia a parecer um abajur.
Ok. Eu que uso chapéus há muito, nunca iria a um
espectáculo de chapéu. É no mínimo de bom tom
não incomodar os demais.
( Carlos Sousa, as mulheres de chapéu não se parecem
com um abat-jour, sejamos sinceros 😜) 🙋♀️
Não é nada disso kika, eu disse que parecia um abat-jour porque o chapéu de mulher também só ilumina quem está por baixo.
Hum…Hum…
Aguardo uma melhor oportunidade.
Tomei nota .
Ai vossemecê queria espetar um linguado na Chantal Garsan? Vá para a fila.
Levaram-me a ver ” O Fantasma da Ópera” no dia 14 ao Campo Pequeno. Gostei muito. Tenho apenas a apontar que as ” cadeiras de orquestra” eram mesmo cadeiras, mas mais de esplanada, de abrir e fechar e de cor vermelha para relembrar as touradas, talvez?
Reclamei, sabe? Não me vai adiantar muito, mas caramba…
Estas eram iguais às outras, Maria Dulce. Todavia, o espaço entre filas é tão estreito que fiz, ao intervalo, um grande consumo de “desculpe” e “perdão”. Claro que não era preciso nada disso se as pessoas quisessem, como eu, ir fumar. Fala-se muito dos malefícios do tabaco mas destas inconveniências ninguém diz nada. Os não-fumadores são uma das pragas da contemporaneidade.
Não sei se é pior do que ter “vizinhos” a conversar durante o espectáculo. Eu também distribuí desmesuradamente “schius”, que funcionavam por alguns minutos. Tudo porque não era nada como na Broadway e as diferenças encontradas eram tantas, que não se fartaram de as apontar… enfim. No final do primeiro acto pedi o favor de deixarem os demais apreciar o resto do espectáculo. Não tive grande sorte.
Conclusão: levaram muito a sério o chamar-se “Tosca”. A começar no guarda-chuvário e a acabar no palco.
Há gente muito literal!
Sobre o chapéu… E outras coisas que pressupomos postiças.
E se pudéssemos clicar no ADN e escolher que corpo levávamos à ópera, que tipo de pele nos revestiria, que cor de olhos e cabelo, que feitio de anatomia desejávamos, etc., então, não seria o mesmo que o ‘chapéu’?
Os mais desatentos julgam que esse dia está distante …
Mas, quando esse dia chegar, a ópera estará dentro de uma sala ou cá fora?
Carl Boetticher (na obra “Tectonics of the Greeks of 1849-1852”) retoma a tese de Hegel (na obra “Vorlesungen über die Ästhetik” / “Leituras sobre a Estética”). De que «os pormenores da decoração e os ornamentos» são a ligação crucial entre as formas naturais e as formas construídas. Deque são esses pormenores e ornamentos que estabelecem o elo entre «as formas rígidas de geometria, daquilo que é necessário construir» (parques, ruas, edifícios, ferramentas, utensílios, etc.)» e «as formas estéticas, que estão dentro no desejo de belo».
Ou seja, são «os pormenores da decoração e os ornamentos» que fazem as Pessoas comunicar entre esses dois mundos (o ‘do necessário’ e o ‘do desejo de belo’). Friedrich Schiller, acerca disso, escreveu: “Visible signs of the savage’s entry into humanity consists in a propensity to ornamentation and play” (“Lectures on the Aesthetic Education of Man”).
> realização de tal modo do tipo
Há-de experimentar ir ver um Nabucco à espera de guarda-roupa deslumbrante e grandes coros, e saír-lhe uma encenação Varsóvia 1941 a preto e branco, que até o som ficava atabafado.
(Aviso à navegação, parece que não é ilegal fazer isto)
No decurso da minha existência, fui assistir a ópera ao vivo por três vezes, em teatros diferentes. Decerto por azar meu, foram três péssimas experiências, cujo custo fiquei a chorar. No último desastre, já lá vão bastantes anos, acabei mesmo por sair a meio e jurei não repetir.
Como felizmente não deixei de gostar do género, prescindo da parte teatral e ouço em casa tranquilamente, de pernas esticadas, recorrendo à imaginação para o “technicolor” e poupando no bilhete para o circo.
E por vezes aparecem espectáculos bastante meritórios na televisão, com encenações clássicas ou mais arrojadas mas bem conseguidas. Se não me agradar, não vejo e não tenho que voltar a resmungar para casa, eheheh.
Por exemplo, embora não sendo ópera, ainda há poucos dias vi na RTP2 um concerto de árias barrocas (“Facce d’Amore”) do J. Orlinski em Toulouse que me deixou absolutamente maravilhada. Ele esteve em Portugal há pouco tempo, mas não considerei sequer ir vê-lo ao vivo, para quê? Para um banho de multidão e ruídos mastigatórios numa “sala multiusos”, ou “arena”!, qualquer?
Os vestiários são deveras simbólicos daquelas coisas que ficaram lá atrás, e que só quem as conheceu dá (porque só quem as conheceu pode dar…) o devido valor: as casas expressamente construídas e dedicadas a um único uso, as mais das vezes a uma única arte, em que o preço do bilhete também incluía naturalmente o conforto do espectador. Qualquer cinema tinha vestiário, quanto mais os teatros ou as salas de concertos ou os Coliseus.
Na verdade, as salas de espectáculos eram parte integrante dos encantos da arte, além do que proporcionavam trabalho e emprego a muita gente. Agora, que é tudo “patrocinado”, também é tudo em serlf-service do utilizador-pagador, que ainda tem o bónus acrescido de levar com abundante poluição publicitária do “mecenas”.
Dizem que é o preço da democratização, logo da massificação, das artes. Por mim, fico por casa, bem servida pela tecnologia; e sinto-me grandemente consolada por ainda ter vivido nos tempos em que havia vestiários. Na nação portista sempre trocaram os “v” pelos “b”, adaptaram-se com certeza com mais facilidade à dita massificação.
Como é sabido, a ópera é para operários (de boné) e não para aristocratas frustados (de cartola).
Revolução Cultural made in China 😂
MOGA (make opera great again).
Fale baixo, caramba!, não dê ideias ao taralhouco…
Quando acabar de recondicionar a Casa Branca é bem capaz de se virar para o Metropolitan Opera, a ver se ganha o “nobel” Pritzker. Não há quem o segure.
Pode contar com o meu voto.
Não precisa, os votos dos norte-coreanos são mais em conta.