Uma questão de prioridades (2)


José Gomes André,

Procuremos responder a este texto de Fernanda Câncio sobre o meu post. Passemos por cima da sua estratégia habitual para menosprezar os seus interlocutores (como a de me chamar "cara pessoa") e falemos da substância do problema. É evidente que o tema do trânsito da Baixa é polémico, mas que existem bons argumentos para o defender. Contudo, "poder apanhar um táxi e sair à porta das lojas" quando a zona está cheia de transportes públicos não é seguramente um deles. Tal como não é sério referir-se na mesma frase ao “bem comum” e ao direito dos habitantes da Rua do Ouro e da Prata em abrirem as janelas e não “sentirem a casa a tremer na hora de ponta”.

O debate sobre o bem público tem que ir para além destes sentimentos egoístas e desta lógica bairrista (não por acaso Fernanda Câncio mora na Baixa), porque senão amanhã os habitantes do Saldanha, de Benfica e do Campo Grande também vão querer fechar as estradas para respirarem melhor e não ouvir carros nem ambulâncias. A questão, como sempre, é pesar as vantagens e inconvenientes de uma medida tendo em conta quem dela usufrui directa ou indirectamente. E embora me pareça uma boa ideia limitar o trânsito numa zona histórica (para habitantes, turistas e frequentadores), é igualmente verdade que a Baixa corresponde a um vector fulcral no tráfego da capital.

Sem se remodelar o sistema de transportes públicos gerais e sem se projectarem vias alternativas para o trânsito, o fecho do tráfego na Baixa conduzirá a um entupimento de zonas limítrofes como a Avenida da Liberdade, o Marquês e a zona das Amoreiras, já de si francamente congestionadas. Imagino que para quem pretenda fazer compras na Baixa, isto tenha pouca importância. Mas para os muitos lisboetas que necessitam de viatura própria para chegar ao trabalho, pode ser a diferença entre um dia normal e uma visita ao Inferno.

10 comentários em “Uma questão de prioridades (2)”

  1. Acho a posição da Fernanda Câncio muito interessante. Nem vou perder tempo. Só dois pontos.

    1. Uma pessoa que vive na Baixa defender o corte do trânsito na Baixa e, ao mesmo tempo, defender a possibilidade de se deslocar de táxi na Baixa para sair à porta de qualquer loja da Baixa é, no mínimo, incongruente.

    2. De porta de loja da Baixa em porta de loja da Baixa, talvez valha a pena ela perguntar aos lojistas se querem o fim do trânsito automóvel ou não.

    A vontade dos lojistas não poderá nem deverá ser determinante. Mas eu conheço a resposta. E acho que a Fernanda Câncio também conhece, só que a achou certamente capaz de estragar a sua análise sobre o tema…

  2. Assim de repente, recordo-me do eléctrico que passa naquela zona, de várias carreiras de autocarros que se cruzam no Rossio, de duas linhas de Metro que se cruzam no Chiado e que têm várias saídas no Rossio e no Chiado.

    É certo que, se se quer ir gastar um voucher de 2000 euros de roupinha na Zara, é preciso andar um pouco (um minuto). Mas pronto, é muito mais “chique a valer” parar o táxi à porta do estabelecimento, de preferência com um cortejo de fotógrafos a registar o evento.

  3. José Gomes André,

    Desculpe que diga, mas você é um reaccionário. A f. tem toda a razão. Aliás, deveríamos mesmo cortar toda a circulação automóvel, a bem dos direitos e garantias individuais e colectivos. É incompreensível que num país europeu haja carros a circular na rua!.

    Cá para mim vou emigrar, mas a pé, que de carro faço tremer casas e disso não quero.

    Cumprimentos

  4. A Fernanda Câncio nem na Baixa mora: reside sim mesmo juntinho à Igreja de santo António de Lisboa: é um “desperdício”, uma vez que ela não é crente…

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