Por vicissitudes várias, há pelo menos uma dúzia de textos que, nos meus anos de blogosfera, já fiz e refiz inúmeras vezes na minha cabeça sem que uma única letra tenha sido (ainda) colocada no papel ou no computador. Um deles seria sobre Vangelis, que morreu na terça-feira. Não foi raro ouvir manifestações de estranheza pela minha admiração por ele. Que não reduzam a sua obra à “banda sonora do Guterres”, foi o que sempre respondi aos sarcásticos, ou às bandas-sonoras de Blade Runner e Chariots of Fire, foi o que sempre respondi aos benévolos: a discografia de Vangelis pré-Colombo foi de contínua experimentação onde se ouve o rock progressivo dos Aphrodite’s Child, o jazz, a música clássica, o minimalismo, o avant-garde, o pop e até algum rock mais eléctrico.
Vangelis (1943-2022)
João Sousa,

Só de lembrar a campanha/legislativas de 1995 até dá arrepios.
Pior só a música das facadas na banheira do “Psico”.
Será que o rabacué do guterres (com letra pequena) já enviou as condolências?
Por causa dessa campanha (e de todo o pantanal que se lhe seguiu), a música tornou-se para mim o que a Nona foi para o Alex de Laranja Mecânica. E discordo consigo quando diz que a música do Psico dê arrepios: a mim nunca o fez. Já a canção do Titanic…
Sem dúvida, João.
Do muito que recebi dele, o que guardo como preciosidade é a homenagem a El Greco (não a banda sonora, embora essa seja bem interessante). E sempre fico à espera de que apareça a Caballé…
Também o tenho ali na prateleira.
Charlotte of Fire é um dos meus filmes favoritos. Perdi a conta às vezes que o vi. Não seria seguramente o mesmo filme sem a empolgante banda sonora.
Nem o Blade Runner.
Rain an Tears dos meus 16 anos…
Voa nas asas das partituras Évangelos!
Chariots e não Charlotte, de quem até não sou fã
Não é fã da menina Gainsbourg? Ou é da senhora Rampling? Esta até participou no Zardoz – e qualquer pessoa que tenha colaborado naquela bizarria psicadélica tem para sempre a minha estima.
Essas misses Charlotte aprecio até bastante. Referia-me aos Good Charlotte
Eu gosto do filme Chariots of Fire. Não vou dizer que o tenha revisto obsessivamente (uma meia-dúzia de vezes no máximo), mas é um filme que ficaria a ver caso tropeçasse nele ao fazer zapping pelos canais. Em mãos menores, correria o risco de ser uma lamechice xaroposa. Hugh Hudson, apesar de todas as entorses factuais cometidas em favor da narrativa, soube fazer um filme cheio de dignidade e com imenso bom-gosto.
Não sei se sabe, mas durante muito tempo o realizador insistiu com Vangelis para não se preocupar com o tema principal do filme: ele já estava mais do que decidido a usar o L’Enfant (do álbum Opéra Sauvage). Vangelis sabia ser capaz de compor algo mais apropriado e lá conseguiu convencer Hugh Hudson a, pelo menos, ver a cena com a nova melodia. Felizmente para todos nós, Hugh Hudson não era pessoa de birras e percebeu logo o que tinha a fazer.
Chariots of Fire, Blade Runner e Antarctica são três filmes que vi com bandas sonoras dele e que não seriam os mesmos sem elas. Em particular Blade Runner, no qual a música contém elementos sonoros que parecem fazer parte da própria narrativa visual. E considero um desrespeito a Academia de Hollywood não ter, pelo menos, nomeado Vangelis pelas outras duas bandas sonoras. Parece que só a John Williams eram permitidas nomeações e prémios em série.
Absolutamente de acordo.
Like tears in rain… Time to die
Roy Batty é um personagem que eu compreendo cada vez mais à medida que os anos passam.
Cada vez mais, creia.
Quanto a Vangelis, comigo começou há muitos anos. Nos idos de Albedo 0.39. Velho, é isso.
Não era “anónimo”, a propósito do 0.39. Mas as máquinas têm sempre razão…
As máquinas têm sempre razão? Não estou muito convencido disso, até por o meu trabalho depender da sua falibilidade. O que estas máquinas têm sempre, por muito loucas que pareçam, é método nessa loucura.
Albedo 0.39 tenho-o aqui em vinil. Digam o que quiserem da limpidez, durabilidade e portabilidade dos cds: não há comparação entre o impacto visual da capa de um LP e a de um cd.
Têm razão, chame-se-lhe “razão”, as máquinas, no sentido em que se o “input” (perdoe-se o termo) é errado, o resultado não pode ser o correcto. E isso quanto à precipitação que me fez comentar como anónimo. Nada mais.
Tive-o também em vinil e o que escreve é bem verdade. Não saberei apreciar as subtis mas preciosas diferenças, a excelência, a imbatível excelência, parece, que um vinil bem prensado, e quando em conjunto com um superior equipamento de som, sempre terá perante um CD. Seja por não ter um ouvido suficientemente educado, seja por não ter equipamento de tal patamar, seja por acreditar que tudo isso facilmente sai frustrado quando se não tem em casa um verdadeiro auditório, uma sala concebida como tal. Ou quando quase tudo o que disso se ouve é escutado no carro. Mas ver por estes tempos no diminuto estojo de um CD certas capas que conheci no formato de LP, só não desencanta por despertar em regra memórias felizes.