Vão-se os dedos, mas fiquem os anéis


Paulo Sousa,

Nos últimos dias foram vários os casos em que as consequências do estado degradante do SNS chegaram às notícias. Desde a grávida que perante a falta de obstetras perdeu o seu bebé, ao passeio de grávidas de hospital em hospital até poderem serem assistidas, ao aumento dos números da mortalidade materna, até ao “ultrapassar os limites do imaginável” assumido pela Administração do Hospital de Almada. Mesmo com todas as notícias dos exemplos do estado a que o SNS chegou, a realidade é infelizmente pior do que aquela que chega às notícias.

Apesar disso, apesar da frustração, da insegurança e da perda de vidas causadas pela lenta agonia do SNS, o governo e a ministra da saúde não têm sido alvos de uma fracção dos protestos que casos de bem menor gravidade causaram noutros tempos.

Muitos dos apoiantes do governo, parte significativa dos quais beneficiários da ADSE, acharão que mesmo com todos estes “contratempos”, mesmo com os “constrangimentos impossíveis de suprir”, podemos respirar de alívio pois pelo menos não somos governados por liberais, nem o acesso aos serviços de saúde serve para engordar os lucros do operadores privados da saúde. Para quem tem ADSE, se o resto dos portugueses tivesse acesso a um sistema de saúde sistema idêntico ao alemão ou ao inglês, seria como regressarmos aos tempos do Estado Novo. Isso é que não. SNS para as doenças outros, para quem tem ADSE é refresco.

15 comentários em “Vão-se os dedos, mas fiquem os anéis”

  1. Segundo a OCDE Portugal cortou 600 milhões na saúde mas foi em 2013 o dobro daquilo que negociou com a troika. Está no Google, é só procurar.
    E preparava-se para cortar mais 600 milhões em 2015 se tivesse ficado no governo.
    Se isso tivesse acontecido então agora é que já estávamos todos refrescadinhos.

      1. Acho que é melhor não abrir um consultório. Você para bruxo não dá.
        Mas não fique triste porque tenho um seguro de saúde.

      2. Não sei se o Carlos Sousa é beneficiário da ADSE mas não me espantava que fôsse pois demonstra bem o “analfabetismo financeiro” quando acena repetidamente com 600 milhões de há 8 anos atrás (uma gota de água no SNS) enquanto provávelmente se pavoneia num privado qualquer cada vez que tem um calo num pé.

        Agora o que eu sei que ele tem – e desde há muito – é uma “pancada” anti-Passos como há poucas e até guardei aqui em Word (por curiosidade) algumas das diatribes mais “desvairadas” dele nessa matéria.
        Dessa “pancada doentia” é que ele se devia tratar, mesmo gente com muitas boas razões já não a tem, há pessoas que continuam a sua vida e depois há esta gente que parou no tempo e acha que ainda “tem direito” a ter opinião…

        1. Convém ter – acreditar firmemente nisso – um culpado claro, cristalino, para os males do mundo. O pequeno mundo de cada um de nós, desde logo. A simplicidade maniqueísta poupa-nos a imenso trabalho: como esse, bem penoso, de pensar (coisa – pensar – de que os portugueses fogem em verdadeiro pânico; ou firme convicção), e proporciona as ansiadas certezas que só o fanático hábito de nivelar por baixo permite. “O Passos” está para durar, como responsável dos males disto tudo.
          Mais depressa se vê o 44 como muito potencial presidente desta desgraçada repúblicazita (ele já se vai doutorando e tudo, cuidando dos requisitos formais) do que se reconhecerá o mal que a “famiglia” socialista fez e faz a este país. Uma questão de masoquismo impenitente, insaciável.
          É assim, por cá, o soberano: orgulhosamente estúpido.

  2. A ADSE parece maravilhosa a quem não a paga. 3,5% em 14 meses é um seguro caro. Além disso os médicos estão todos a sair da ADSE. Excepto para os que ganham pouco. O Estado ficou de lá pôr os contributos dessas pessoas… Até hoje. Justiça Social com o dinheiro dos outros, que já estão asfixiados com impostos… É o que temos…

    1. Cada vez há mais portugueses a pagar para ter um seguro de saúde. A ADSE é um clube exclusivo, que alimenta, e bem, prestadores privados de saúde, algo que os membros desse mesmo clube exclusivo não tolerariam no SNS. Na antiga Roma os patrícios também tinham privilégios inacessíveis aos plebeus. Não estamos muito longe disso.

      1. E quantos seguros de saúde podem substituir o SNS?
        Sendo privados têm o direito de recusar pessoas com doenças crónicas, com doenças que têm tratamentos dispendiosos, que são velhos, e fazem-no a menos que o SNS se assuma como pagador. Claro que podem cobrir tudo desde que o prémio seja suficientemente grande, mas nesse caso só serão solução para os muito ricos.
        Os seguros de saúde que existem em Portugal são complementares ao SNS, não o substituem.
        Assim é fácil ter lucro.

        1. Espero que a jo não necessite, mas a quem tem uma dor de barriga não importa se quem o assiste é privado ou público.
          O malfadado lucro, aquele que faz espumar demasiados portugueses (sabe qual a última palavra d’Os Lusíadas, certo?) é um importantíssimo componente daquela rúbrica macroeconómica que conhecemos por PIB. O lucro é sujeito a impostos vários e permite remunerar investimentos e salários, que são, também eles, sujeitos a outro tipo de impostos. Quando se diz que nos estamos a afundar nos rankings de riqueza europeus, estamos a dizer que a nossa economia tem lucros insuficientes para as necessidades da nossa sociedade. Há um lamentável enviesamento ideológico contra o lucro que explica parte da nossa triste trajectória das últimas duas décadas.

          1. Não, a quem tem uma dor de barriga não importa quem o trata. Já a um prestador privado só interessa tratar quem tem dinheiro para pagar.
            O que deixa duas opções: ou o pobre não é tratado, ou é pago com os nossos impostos como se fosse tratado no SNS.
            Os prestadores privados gostam de dizer que gerem melhor o dinheiro que o público, e é verdade, se a doença a tratar trouxer mais problemas do que dinheiro não a tratam. Viu-se isso durante a pandemia, não se ganhava dinheiro a tratar doentes de Covid, logo não se chegaram à frente. As famacêuticas fizeram as vacinas depois de terem garantidos os finaciamentos e as encomendas pelos Estados.
            Não tenho nada contra o lucro mas irrita-me esta dualidade. Para negociar os preços com o Estado conta sobretudo o interesse do Estado em proteger a sua população mais pobre, não o mercado o que distorce a formação de preços em favor dos prestadores, para negociarem com clientes privados, conta o mercado. É exigir qe se cumpram as regras do mercado quando lhes convém e que os nosso impostos paguem quando não lhes convém.

            1. Até lhe dou alguma razão mas o que está em causa é o colapso de serviços básicos pagos com impostos e o problema não se põe só na dicotomia privado / publico, o problema deve levar-nos a reflectir que hoje o Estado é enorme e os serviços prestados são cada vez piores com muito mais recursos disponíveis e ainda por cima com operadores privados que não conseguem ser autónomos pois dependem do cliente Estado para fechar as contas do mês, todos os meses.

            2. Não há muitos meses atrás o Hospital de Braga era gerido através de uma PPP e tinha um elevado nível de desempenho, pois além de permitir que a entidade que o geria ganhasse dinheiro, conseguia prestar um bom serviço aos cidadãos. A avaliação de quem era servido por ele confirmava isso mesmo.
              Por absoluto preconceito ideológico essa PPP foi interrompida e hoje esse hospital está nas notícias por maus motivos.
              Toda a elaboração ideológica que se faça sobre quem deve ou não prestar o serviço, não é mais do que isso mesmo, uma elaboração ideológica. O enfoque é dado ao prestador de serviço e não a quem dele necessita, os cidadãos, os contribuintes, as pessoas.
              Não deixa de ser caricato que quem defende a teimas da ministra, se advogue como defensor dos temas sociais. O caminho para o inferno é pavimentado com boas intenções, e essa é a sina do nosso SNS, na mãos dos radicais anti-lucro.

  3. Quanto “custa” um utente no SNS em comparação com o Privado? A qualidade do atendimento é a mesma?
    Os que se vejam levados pelo INEM forçosamente para um hospital público português vão perceber que num lado terão mais probabilidade de serem tratados como gado e no outro como seres humanos.

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