Deixei de fumar há quase dez anos, mas jurei a mim própria que não me tornaria num desses fundamentalistas prontos a matar, a rajadas de metralhadora, quem ainda não se libertou do vício. E, felizmente, consegui cumprir a jura.
Claro que os ambientes despoluídos são mais saudáveis, claro que fumar não é bom para ninguém, claro que os fumadores passivos são injustiçados. Mas não consigo deixar de ver, em alguns desses irredutíveis ex-fumadores, a frustração de ter perdido um prazer e, até, uma certa inveja dos que consideram suicidas e inconscientes. Pior ainda: noto-lhes uma certa pose farisaica, de quem se acha superior por ter substituído o vidro dos seus telhados por uma resistente chapa de zinco, e está pronto a atirar pedras aos cristais alheios, por se saber a salvo de represálias. Há uma frase de Agustina Bessa Luís, no livro Prazer e Glória, que resume bem o que quero dizer: Não há império maior do que o que se tem sobre os vícios dos outros. Grande, grande verdade.
Enfim, não defendo o tabaco. Sei que é francamente prejudicial à saúde, que pode matar a longo (e às vezes a curtíssimo) prazo. Mas reconheço aos outros o direito a um vício que – ainda me lembro muito bem – dá um enorme prazer. Se querem viver ou matar-se assim, quem sou eu para dizer-lhes que não o podem fazer? Sejamos sérios: o tabaco não é um serial killer solitário, numa cruzada cega contra os humanos. O stress, a solidão, a falta de dinheiro, o excesso ou a falta de trabalho, a poluição e, sobretudo, a ausência de perspectivas de um futuro mais risonho, formam um gang letal. E estamos (quase) todos nas mãos desse gang.
Parabéns aos que não fumam, nunca fumaram ou já deixaram de fumar, e… boas baforadas aos restantes, e que dêem uma ou duas por mim.


Destaquei na Praça! Sou fumador!
Não o invejo, João.
Bom, só às vezes…
Não posso dar baforadas por ti, Ana, sou não fumadora mas convivi demasiado perto do tabaco durante décadas da minha vida.
Também eu, Leonor, e ainda bem que me deixei disso. Mas lá que ainda tenho saudades, às vezes, não posso dizer que não.
Embora nunca tenha fumado, compreendo-te. A minha mãe também deixou de fumar há dez anos e ainda hoje lhe apetece um cigarrito…
… e a fotografia é um MUST!
: )))
Dou uma por si, que duas só quando era mais novo.
🙂
Tenho uma perspectiva diferente. Nunca fumei na minha vida (nem uma passa, é verdade) e tenho duas posições sobre o assunto: a racional, que me diz que não devo criticar demasiado, que há liberdades, etc, etc, etc (além disso da minha família directa toda a gente fuma ou fumou) e a emocional, que me faz sentir às vezes raiva de quem me estraga uma refeição num restaurante porque acendeu um cigarro na mesa do lado ou da pobre pessoas que passa de manhã por mim na rua, com o ar fresquinho e me deixa mal disposto com o seu cigarro.
Feliz ou infelizmente, o lado emocional consegue frequentemente encontrar argumentos para ir combatendo o lado racional…
Caro João André, eu procuro não cultivar raivas dessas. Se o fizesse, haveria tantos e tão diferentes alvos para as minhas raivas, que mais valia voltar a fumar, porque seria pior para a minha saúde um estado de permanente irritação do que o cigarro, que pelo menos era também um prazer.
Podem ser umas 5 ou 6, Ana? 😉
(Não, não tenho orgulho em ser fumador)