Vidas


João Carvalho,

Portugal é o sexto país europeu e o oitavo do mundo a aprovar o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Não me lembro de termos sido tão lestos desde a abolição da pena de morte.

O fim da pena de morte salvou a vida a grandes criminosos. Espera-se que o casamento homossexual possa salvar alguém de qualquer coisa, já que o resto do país continua sem ilusões de vida.

42 comentários em “Vidas”

        1. Enganou-se, certamente. Nada no meu texto pode ter-lhe indicado que eu seria a favor da pena de morte. Só mesmo por engano.

          Já agora, mais uma coisa: mesmo ironia por ironia, o meu texto não merece tanta secura e rudeza apenas por lembrar que está por fazer tudo o resto que, de importante que é, interessa à vida de dez (ou nove, ou oito) milhões de pessoas.

          1. Secura, aceito. Rudeza, não. Não faz o meu género, mesmo em assuntos como a pena de morte.
            Sans rancune, j’espère.

  1. “já que o resto do país continua sem ilusões de vida.”

    Pois pois, mas nas imortais palavras da Teresa Guilherme, isso agora não interessa nada…

    Deixe-os pousar…

  2. Sócrates disse há pouco às televisões que este era um momento “muito histórico” na nossa democracia. Sem conseguir perceber muito bem onde esteja essa tão grande ‘dimensão histórica’ que o nosso PM vê na aprovação desta lei pela AR, não deixo contudo de ver que tem havido à volta deste assunto ‘muitas histórias’ e algumas delas até, bastante mal contadas. Sem estar já a querer falar sobre a oportunidade do agendamento e da grande urgência da aprovação desta lei que, ridículamente, o PM fez questão de apresentar pessoalmente na AR, (quando tem deixado de o fazer em relação a matérias bem mais importantes para o país e para o bem estar dos portugueses), não deixarei, contudo, de aqui expressar a minha total discordância em relação a alguns aspectos desta polémica matéria, nomeadamente e desde logo pela adopção do termo “casamento” em relação a algo que é substancialmente diferente. E tão diferente é que, mesmo sem querermos estar a ser discriminatórios, vemo-nos obrigados usar a expressão ‘casamento homossexual’ ou ‘casamento gay’ para o distinguir daquele que até agora e sem recurso a mais explicações ou adereços conhecíamos como ‘casamento’ puro e simples e que todos sabíamos a que correspondia exactamente. Quem realmente pensar que a sociedade, as mentalidades e a discriminação se mudam por decreto, está por certo muitíssimo enganado, como já alguém – e muito bem – comentou hoje num post anterior em relação a esta mesma matéria.

    1. Claro. Dessem-lhe outra designação e não seria preciso dizer «casamento homossexual», que é, já por si, discriminatório. E jamais deixará de o ser, pela necessidade de distinguir duas coisas que serão sempre diferentes.
      Talvez por isso é que Sócrates tenha precisado de dizer que se trata de um momento «muito histórico», não vá a História esquecê-lo. Afinal, os acontecimentos são históricos ou não são; não há acontecimentos pouco ou muito históricos. Excepto aqueles que substituem uma discriminação por outra…

        1. isso deixo para você…agora dizerem que Portugal foi o primeiro país do mundo a abolir a pena de morte quando esta em vigior a magnanima lei do Aborto, so pode vir de mentes bem formatadas…

          1. Comece a formatar melhor os seus textos, porque este está pior do-có-que é tolerável. E aproveite para formatar algumas ideias, que andam a tornar-se ideias fixas e isso um dia acaba em sério delírio.

    1. Ah! Ias-me deixando atrapalhado. Na abolição da pena de morte Portugal foi realmente pioneiro. A oportunidade era de ouro. A oportunidade da alteração actual é mais duvidosa.

  3. Tenho uma dúvida, que gostava de ver esclarecida. Será que alguém pode responder-me?
    É o seguinte: a partir de agora, um gajo como eu, quando o inquirirem sobre o estado civil, terá de dizer “casado com uma mulher”, é? Não vá o diabo tecê-las, pois então…

      1. Já faltou mais para os outros serem “os diferentes” e terem que lutar por casamento heterossexual. espero que já não seja na minha geração, porque começa a faltar paciência e idade para estas coisas. Na minha modesta opinião deu-se o 1º passo para a adopção. E vai ser engraçado quando um casal homossexual perguntar ao filho “sabes como nescem os bebés”, o filho diz com toda a garantia “claro! por adopção!”

          1. E a desilusão do filho não será maior ao saber como nascem os bebés do que o leite e a galinha virem do supermercado ? E o trauma dos putos? Pensarão:… “Então os meus heróis aldrabaram-me durante este tempo todo?”

            1. Caro João não o conhecendo, como diria o Fernando Mendes, é um espectáculo . Alem de ter resposta para tudo, acho que o faz com grande ironia. Ainda bem. Provavelmente será daqueles que explicar aos filhos como nascem é fácil , não será preciso desiludi-los, nem dizer-lhes que vêm no bico da cegonha ou de Paris.

            2. Meu caro, nenhum pai que se preze gostaria que o seu filho viajasse no bico de uma cegonha, não é? Já quanto a vir de Paris sempre tem outro requinte, mas isso costuma estar reservado aos pais que moram na capital francesa e poucos mais.
              Um abraço.

            3. Os poucos mais não serão assim tão poucos. Basta ver um Verão no litoral português e não é obrigatório ser no Algarve….mas isto são contas de outro rosário.
              Abraço e até uma próxima.

  4. João, não é justa esta sua apreciação. Por um lado a comparação com a abolição da pena de morte parece-me desabrida. Por outro, como se percebe, não é o aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo que vem adiantar, retardar, acelerar ou impedir a resolução de quaisquer outros problemas do país.

    1. Não discordo de si, Ariel. Mas tenho de sublinhar dois aspectos:

      – a comparação (que não é sequer o termo mais adequado) com a pena de morte surje inevitavelmente com o peso (cultural e não só) de uma legislação de ruptura em que o país é pioneiro ou está entre os primeiros;

      – é verdade que «não é o aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo que vem adiantar, retardar, acelerar ou impedir a resolução de quaisquer outros problemas do país» e também é verdade, por exemplo, que um ministro ter um ou ter dois carros topo de gama ao seu serviço não altera a situação económica do país, só que há coisas que quem nos governa tinha de saber, como seja estabelecer prioridades consoante as necessidades mais prementes e evitar dar sinais sobre outras preocupações junto de quem vive no mar de angústia que afoga o país.

      No fundo, trata-se de dar o exemplo (como nos carros oficiais): pedir sacrifícios tem de ser demostrá-los também e abdicar de algumas mordomias; manifestar preocupações de pequena escala na gestão da coisa pública tende a chocar uma parcela enorme e crescente da população que está à espera que lhe sejam proporcionados melhores dias com maior competência governativa e menos escândalos ou desperdídios.

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