Há dias jantei com algumas altas personalidades da Oficina da Liberdade e coloquei o meu novo telemóvel em cima da mesa, onde ocupou o espaço de uma terrina. No bolso não o podia ter, que não cabe. De resto, os donos de restaurantes mais argutos estão a seguir o critério de juntar duas mesas de quatro cada uma não para 8 mas para 4 pessoas, a fim de caberem os modernos telemóveis e as travessas. Alguém comentou que o aparelho não tinha capa de protecção e provavelmente também não película, de modo que se caísse ao chão era estrago garantido. O vidro do écran, ui, caríssimo. Não suscitei a questão de saber por que razão, se é assim, os telemóveis não vêm com tais acessórios – já havia outras matérias controversas para ocupar os comensais. Hoje fui a um centro comercial, lugar da contemporaneidade que evito com zelo, pilotado por quem sabe navegar em tais mares. Na loja, o simpatiquíssimo (são quase sempre) empregado brasileiro inquiriu qual era o modelo – aparentemente tenho aspecto de quem sabe semelhante coisa. Inteirado da minha ignorância, fez ele próprio alguns passos cabalísticos na máquina, encontrou a referência, foi ao computador e informou que capas para aquilo não tinha mas podia encomendar. Já ia dar à sola com presteza mas o meu piloto interveio para dizer que o mais importante era a película, e por isso perguntei se tinham. Era baratucha, 19,99€ (deixei o troco de gorjeta) e comprei. O funcionário colocou-a, num prodígio de técnica, experiência e habilidade e, agradado com o desenlace, resolvi encomendar a capa. Tomando nota no computador, perguntou-me se “queria uma côrzinha”. Isto não me caiu bem, lá que tenha aspecto de técnico de hardware ainda vá mas imaginar-se que eu quero “côrzinhas” nas capas é realmente demais. De modo que, de cara fechada, respondi “preto”. E, tendo dado o meu número de telemóvel para efeito de ser prevenido quando chegasse o almejado extra, tomei providências para que, da próxima, alguém se ocupe da recolha por mim.
Vinhetas (27)
José Meireles Graça,

Por que se queixa?! Conseguiu o que queria num lugar que não gosta e onde foi bem atendido. A “corzinha” foi sugestão normalíssima.
Mas atenção, gostei de ler post tão escorreito e definido.
Então resumindo: foi comprar uma capa de telemóvel, o técnico tratou-o como se estivesse num atelier de artes decorativas da primária e você, armado em ninja da sobriedade, escolhe preto — a cor oficial dos deprimidos com estilo. A sua indignação pela sugestão das “côrzinhaaas” é tão sentida que já organizou um plano de fuga para evitar voltar a falar com o homem. Basicamente, conseguiu transformar a simples compra de um pedaço de plástico num drama existencial: meio azedo, meio elitista, e com a convicção firme de que tudo o que tem cor devia ser proibido por decreto.
> o mais importante era a película, e por isso perguntei se tinham. Era baratucha, 19,99€ (deixei o troco de gorjeta) e comprei.
A película retira todas as qualidades do ecrã — muitas das quais dão valor ao smartphone. Fica tudo mais baço e sem graça. Devia ter comprado só a capa.
Aliás, o caríssimo devia ter feito um post a perguntar se é bom meter uma película.
“0 euros por uma película?! Por esse preço compra-se um telemóvel…
Pessoas já com uma certa idade e de respeito, dão tanta importância ao telemóvel como os putos da escola …, como isto vai ! Estava mesmo daqui a apreciar, se ia pôr uma capa cor-de-rosa…!
Santa paciência, pessoas dum certo gabarito!
Vejo-o generosamente perdulário nessa espórtula ao pobre imigrante
Sou assim, sabes?, a generosidade é-me natural, nem tenho consciência disso.
E ainda bem, assim sofre menos com a imerecida ingratidão.