O restaurante fica perto do alto do monte, enterrado no meio dos enormes rochedos que por lá há. Ente estes há um dédalo de carreiros empedrados sempre a subir ou a descer, às vezes dando para becos sem saída ou locais de difícil passagem.
O conjunto não é grande e a espaços vê-se a cidade lá em baixo, de modo que nunca é difícil uma pessoa orientar-se.
Há mais do que um restaurante e no primeiro, mais rude porque fica num pequeno largo onde a maior parte das mesas se encontram por baixo precisamente de rocha e algumas poucas a céu aberto, havia fila para o balcão da cozinha. Neste se entregava o caldo verde, o pastelão de sardinha ou de toucinho e frango ou costelinhas grelhadas, o enorme grelhador ao lado fazendo uma grande fumarada que se dissipava com dificuldade. A fila não andava, devia-se estar num momento de intervalo de chegada de cozinhados.
As bebidas eram noutro balcão, lá ao fundo, e rosnei para a companhia que sairia dali a cheirar a chouriço fumado, de modo que por geral consenso seguimos por um carreiro em direcção a um outro restaurante que havíamos visto à chegada, dois de nós numa direcção e os outros dois noutra um tanto divergente, consoante o nosso respectivo sentido de orientação. Ambas estavam erradas, de modo que mais à frente nos avistámos, nós mais acima, todos concordantes na conveniência de subir até ao largo, como fizemos.
Deus me livre de vir para aqui com gabarolices gastronómicas para excitar as invejas do leitor desprevenido, mas o que veio para a mesa foi pão, azeitonas, chouriço grelhado, bolinhos de bacalhau, pataniscas, salada de feijão frade, cebola com o respectivo sal grosso e vinagre, tudo em quantidades himalaicas e regado com o vinho da casa: branco para os meus acompanhantes, que são umas frôzinhas, um tinto grosso para mim na sua infusa de lata. Os outros escolheram para a resistência cação de cebolada, eu punheta de bacalhau.
Como mais depressa que as outras pessoas. A lentidão provoca ingestão de quantidades excessivas de ar entre as garfadas, de modo que é decerto por isso que não me encontro barrigudo. E certamente também não sou daqueles que nos intervalos da mastigação olham para o infinito, a meditação não me parecendo o melhor dos acompanhamentos para circunstâncias prandiais.
Venho cá para fora fumar antes da sobremesa. Ia saindo um casal de meia idade já um bocado adiantada, ambos com aquelas calças cortadas pelo joelho, as dela, que ia à frente, mais justas do que lhe convinha e aos meus olhos.
O cavalheiro, de excelente aspecto, disse que era pela direita, a subir; e ela, que já tinha encarreirado em frente, declarou sem se voltar, numa voz cortante: Cala-te e anda, é por aqui. Ele calou-se e andou por ali. E eu fiquei pensando que elas estão que não se pode.
De modo que afinal também medito: não no meio das refeições mas no intervalo.

… -hummm… , não se encontra barrigudo…!, meditar nos intervalos da salada de bacalhau com cebola e azeite, só se meditar no que vai a seguir. Se apanhasse, ainda, uma posta de maronesa e pastilhas de Covide, marchava tudo, com verde na infusa ou não.
Deus nos ajude ao alimento da “alma”…