Cheguei mais cedo à clínica e a recepcionista informou que “o sr. dr. ainda não tinha chegado”. Bem, vou vendo o correio.
Fui vendo o correio, que tinha aliás chatices ominosas (ominosas porque a consulta era de cardiologia e decerto as más notícias, aumentando-me a tensão, induziriam o médico a ver fantasmas), e a páginas tantas vim cá para fora fumar. Um desses cigarros modernos que não têm cinza e, depois de fumados, têm o mesmo aspecto de quando ainda eram virgens.
Meti, no regresso, o cigarro ao bolso, e, sentando-me, reparei que em frente estava o que parecia um cesto de lixo alto, cilíndrico e completamente transparente, cheio até cima.
Tinha apenas maços de tabaco, e atirei para lá, desprendidamente, a beata. A recepcionista, simpática, informou que eram de ex-fumadores que ali tinham sido tratados.
Signifiquei-lhe que tinha pena dessas pessoas. E como ela inquirisse das razões da minha observação condoída, expliquei que a vida sem vícios é uma terrível maçada, pelo que desejava que aqueles infelizes tivessem outros, ainda que ocultos.
Quem agora ficou com um aspecto condoído foi ela. E li-lhe na expressão o que estava a pensar: Este não devia vir à cardiologia, aí ao lado a psiquiatria é que lhe convinha.

Cá está um texto que é um monumento ao egoísmo extraterrestre do fumador, que acha sempre que é o único lúcido na sala, quando na verdade está a dar um workshop grátis sobre porque é que a seleção natural falha. Foi à cardiologia, mas no fundo o diagnóstico final já estava dado: não é o coração que bate mal, é a cabeça que está a fumar sozinha.
A sério, Carlos Sousa? Olhe que me deu um grande alívio, eu a pensar que havia alguma coisa no coração e afinal é na cabeça. Mas isso deve ser a hemicrânia, um tipo de cefaleia que me deu alguns problemas, julgo eu que por excesso de conhecimentos (só literatura são 28 séculos, está a ver). Muito obrigado, mas já foi tratado.
Ah, ainda bem. Então afinal não era o coração, era só a cabeça — e já tratou.
Mas vá com calma: 28 séculos de literatura a escorrer pela testa sem dó nem piedade fazem‑lhe mais mal que tabaco sem filtro. E já agora, se o cérebro lhe dói de tanto saber, experimente a ignorância: dizem que é analgésica e nem precisa de receita.
Fico sabendo que a ignorância é analgésica e confio nos seus conhecimentos na matéria. Mas a verdade é que, por um lado, já não vou a tempo e, por outro, a condição de ignorante não tem só vantagens: implica, entre muitas outras coisas, interpretar textos literalmente.
Cuidado ao interpretar textos literalmente, veja lá não confunda a Bíblia com o manual de instruções da Bimby. A metáfora existe precisamente porque a realidade, sozinha, já estava cansada de aturar interpretações parvas.
“vida sem vícios é uma terrível maçada,”
Concordo. Não aguento a conversa daqueles que tentam convencer-nos a levar uma vida saudável, comendo não sei quê e etc. Para quê? Para vivermos mais anos mas infelizes. É preferível viver menos sem abdicar de tantos prazeres. Ou então metam-nos à nascença numa redoma de vidro onde nada entre senão as coisas, e nas quantidades, necessárias à vida. Assim deveremos passar dos 100 anos, pelo menos muitos mais do que sem esses cuidados. Teremos uma vida como vegetais mas andaremos por cá mais anos. Que sacrifício …. talvez para ir para o Guiness por record de longevidade.
Agora, suponha, José Meireles Graça, que uma cena muito semelhante à descrita por si, ocorria em moldes muito parecidos, mas tinha como protagonista uma Psicóloga… Conseguiremos imaginar o grau de perplexidade plasmado no rosto da recepcionista? Ou o seu esgar, traduzindo um pensamento do género: “Mas que treta é esta, o que me havia de calhar hoje?” As respostas são para uma amiga, mas, e ainda assim, não posso deixar de endereçar ao José a minha total solidariedade…
Eu, que fui uma grande fumadora (do tabaco a sério), e para quem deixar de fumar foi extraordinariamente penoso, até concordo com essa da vida sem vícios ser mais maçadora.
No entanto nunca apliquei a máxima ao caso concreto do tabaco, que sempre me surgiu como um vício que não retribuía minimamente em gozo o que se investia em dinheiro, mau hálito e mau cheiro em geral, dentes pretos, a visão deprimente (e mal-cheirosa…) de cinzeiros cheios de beatas, e vou ficar por aqui.
Não proporciona qualquer tipo de euforia ou “viagem” ou alheamento ou riso ou alteração de consciência… Nada de nada de nada. Só a ânsia bruta da privação, uma espécie de alcoolismo sem nunca ter passado sequer pelas gratificações do “consumo moderado”. Claro que há pessoas que juram que gostam de fumar, e são normalmente as mesmas que garantem que pararão assim que queiram.
Mas isto digo eu, que passei praticamente toda a minha vida de fumadora a tentar deixar de fumar. O que não se passou com outros vícios menos viciantes, mas muito mais interessantes, que vou cultivando para que a vida seja menos maçadora…
Boa-noite.
Estou absolutamente solidária com o senhor José Meireles Graça,
O meu querido avô paterno, um senhor de 85 anos, a quem toda a gente inveja a sua dinâmica saúde, fumava, deixou de fumar e assim esteve sem o cigarro durante 18 anos, e voltou a acendê-lo ao dia da morte da minha avó, sua esposa.
Ora o meu avô nunca fez dieta de nada, ao contrário da minha avó que fazia dieta de tudo. Ela, uma dieta vegana, ele tudo de feijoadas para cima. A minha avó morreu de cancro nos intestinos, e o meu avô quanto mais envelhece, mais pujante e saudável se torna. Há dois anos teve um AVC, foi tratado e veio para casa cheio de recomendações a seguir. Nada de refeições pesadas, nada de café, nada de tabaco. Fiquei encarregada de que ele seguisse essas diretrizes, e ele fez e faz exactamente o oposto.
Desisti de lhe atormentar a existência com recomendações, quando ele me disse:
Minha querida, nunca diga que viveu quem passou pela vida sem lhe testar os limites.
Agora dá cá um beijinho ao teu avô e chega-me aí o meu maço de cigarros.
Por isso toda a minha solidariedade para si.
Felicidades.
Ah, ah, ah !!! Caco Antibes? És tu?
Caco chega no consultório para a consulta de cardiologia. O médico está atrasado e vai ter de esperar.
” Tenho de fazer tempo. Já sei vou ver os e-mails em atraso, aproveito para perguntar a correspondência em dia.
Oh não, cada mensagem é mais sinistra que a anterior. Só desgraças. O meu coração não aguenta o stress. O doutor vai encontrar uma série de problemas só á conta de eu ler o correio.
Já sei! Vou para de ler para não prejudicar a saúde do meu coração.
Vou lá fora fumar um cigarro!
Não posso deixar que o stress dê cabo do meu coração.
Talvez seja melhor fumar dois cigarros!”
O tabaco, como ZEBRA muito bem diz, é um vício muito parvo, não dá gozo nenhum mas a sua falta é danada. Cheguei a sair de casa às duas da manhã para ir à estação de serviço reabastecer-me do malfadado produto. Em duas ocasiões reneguei o vício, a primeira ainda jovem e deslocado em África, quando após 15 dias de abstinência uma delegação de alguns dos meus subordinados se acercou, implorando que voltasse a fumar. Explodi, olhar incendiado, furibundo, gritando que não zelavam pela minha saúde, até que percebi que o meu comportamento se tinha alterado de tal modo, mais tenso que corda de viola, permanentemente irritado, que me lançei de novo para os braços do “SG Gigante”.
A memória dessas agruras fixou-se de tal modo indelével que durante décadas, fumando dois, às vezes três, maços por dia, não me arrisquei a tentar largar de novo os cigarros. Eis senão quando, de modo absolutamente fortuito, uma forte constipação fez com que o travo do tabaco soubesse mal, não chegando sequer a acabar o maço há pouco aberto. Passaram-se dois ou três dias sem gritos ou angústias, enterrando assim sem dramas um vício/hábito que sustentei durante mais de quarenta anos. Cheguei entretanto a uma idade que me permite o privilégio de trocar uns meses de velhice trôpega por produtos proíbidos, como por exemplo uma sobremesa provocante nos seus cremes ou um bom Cognac. Há vícios toleráveis de tão bons.
Ora aqui estamos nós novamente em sintonia, e mais ainda – em coincidência. Eu explico. Também a minha hora da libertação do vício mais estúpido de todos os vícios se deveu a um episódio de doença. No meu caso, nunca cabalmente diagnosticado, apesar de ter metido hospitalização e tudo. Para resumir, direi que se a coisa se tivesse passado exactamente um ano depois, eu juraria que se tratava de covid temporã, e de covid “da boa” como larachava o Almirante.
Durante uma semana, febres de 40º, e um completo horror à comida e aos cheiros que só voltaria a sentir, lá está, quando infectada com covid (a original).
Portanto, uma semana sem fumar, e com acessos de náusea à simples ideia de o fazer.
E decidi aproveitar aquele intervalo forçado no vício para o deixar de vez, por uma vez!, sem tretas nem desculpas, o que de facto consegui. Mas custou-me tanto, tanto, tanto, caro Carlos Arnaut… Penei dois longos meses até normalizar.
Já lá vão sete anos, sem qualquer recaída, nem sequer tentações, e ainda menos saudades da escravizante porcaria.
Sobre os vícios toleráveis de tão bons, direi apenas que subscrevo de forma militante!
Lamento as duras penas sofridas para do malfadado vício se libertar (como diria Camões).
Ainda hoje me interrogo, e já lá vão vinte anos, como sobrevivi incólume ao divórcio com o fumo, sem angústias ou ânsias de regresso, sobretudo quando era invejado por outros desistentes, que só faltava chorarem-me no ombro ao relatarem os seus padecimentos aquando do corte com os cigarritos. Em conclusão, fui bafejado pela sorte e por uma muito oportuna constipação que no fundo funcionou como uma vacina. Boa noite, espero que agora respire melhor.
Muito melhor, obrigada! E não é só a respiração mais leve, é a carteira mais pesada e o amor-próprio muito mais brunido. Nunca suportei grilhões, então os auto-impostos são particularmente dispensáveis, e sentia a dependência do tabaco como um verdadeiro falhanço pessoal.
Mas conheci alguns outros “sortudos” como o caro Carlos Arnaut, que sofreram pouco ou relativamente. É uma questão idiossincrática, há até pessoas que fumam três ou quatro cigarros por dia durante anos e nunca chegam a viciar-se. Mas são muito poucochinhas, eheheh, o melhor de facto é nem nunca experimentar.