Vinhetas (36)


José Meireles Graça,

O Vitorinha ia jogar ao Jamor a final da Taça e na cabeça do dono do melhor restaurante da região (e um dos melhores do país) nasceu a ideia de uma excursão, de camioneta, àquele estádio, sito em terras em devido tempo incorporadas no país.

Só clientes habituais, alguns deles, como este que se assina, amigos, o preço não sendo exactamente uma pechincha.

À hora aprazada lá nos encontramos e, com o olhar prazenteiro, as piadas de gosto duvidoso pululando, a antecipação da jornada, abalamos.

Ainda antes de chegar ao Porto já um empregado, à laia de desenjoo, ia passeando uma garrafa de legítimo champanhe, que teve de ser reforçada prestes, tal o sucesso da iniciativa. E pareceu uma delicada atenção que, apesar do sacolejo da camioneta, a bebida fosse servida em flutes genuínas, decerto para firmar nos espíritos a ideia de não sermos excursionistas com acne e mochilas.

Houve um desvio no Porto para recolher um outro peregrino e a viagem ia decorrendo sem sobressaltos. Algures a meio circularam pratinhos com salmão fumado, pimentos padrón, presunto pata negra, outros mimos, tudo regado pela mesma bebida, dado que se tratava de viajantes conservadores.

Chegados ao destino à hora do almoço, abriram-se as arcas do tesouro, guardado na caverna geralmente destinada, naqueles veículos, às bagagens, e os dois lestos empregados procederam com desembaraço à instalação de várias mesas topo a topo num recanto do pinhal, formando uma grande, dado que éramos aí uns vinte autênticos ou fingidos amantes de futebol.

Assisti com algum espanto ao forrarem com toalhas alvíssimas aquelas mesas de campanha; e as alfaias na mesa não diferiam em nada das da casa-mãe. O meu querido amigo Pedro não fazia as coisas pela metade por entender, cheio de razão, que os requintes da civilização de modo nenhum são incompatíveis com um ambiente bucólico.

Havia entradas variadas e a resistência era cabrito assado, tudo coroado por bom sortido de sobremesas. Quem quisesse tinha também vinhos à disposição, ainda que muitos, como eu, continuassem no champanhe, com certeza por serem avessos a misturas.

A instalação ficava ao lado do caminho de acesso a uma entrada no recinto. E várias pessoas se detinham contemplando a cena inusitada, raros fazendo perguntas mas muitos comentando em alta voz. Que diziam? Que tava-se mesmo a ver que aquilo era gente do Vale do Ave, um bando de fássistas, que era preciso lata para vir para um sítio daquele com estes preparos, e coisas ainda menos simpáticas.

Serviu de picante, ainda que não fosse preciso: o tempero era, como de costume, aprimorado.

E então, o jogo? Ganhámos.

2 comentários em “Vinhetas (36)”

  1. Sempre um grande “garfo” e um “fino copo”, e , já agora , um alvo guardanapo de linho fiado lá para os de Vilarinho…
    Ganharam agora, toldados de champagne… !!
    Hummm…

  2. Ora ainda bem que ganharam, assim é que desenjoaram mesmo, uma vez que levaram o restaurante do costume às costas (ou levaram os empregados, talvez melhor dizendo, mas não sejamos picuinhas).

    Estava aqui a lê-lo e só me vinha à lembrança o Jerome K. Jerome e os “requintes de civilização” lá no bote no Tamisa; que não correram tão bem como o vosso lauto piquenique em tão raquítico pinhal, mas decerto apenas por falta de lestos empregados.

    E fizeram muito bem em não dar troco aos pelintras invejosos e maldizentes: não tendo pão, comeram brioches; e se eles soubessem o que perdem também não iam querer outra coisa…

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