Venâncio tinha uma inclinação muito marcada para o asneirol. Tanto que em passeios, restaurantes, no café, se prestava disfarçada atenção ao que dizia porque calhava com frequência serem memoráveis disparates.
Apareceu um dia com uma Honda novinha em folha, de um azul que dava gosto.
Distinguia-se das motorizadas portuguesas porque, com um motor a 4 tempos, tinha um barulho cavo, em vez do agudo habitual. E foi a primeira machadada na pujante indústria nacional daqueles velocípedes, ainda que na altura isso não se adivinhasse. Essa indústria viria a finar-se, aliás, por outras razões que não cabem aqui.
Organizou-se um passeio ao Douro, a casa de uns ingleses, pais de uma amiga de não sei quem. Lá chegados, a dona, uma senhora distinta, recebeu com simpatia e ofereceu um lanche.
Um cão de grande porte assomou à sala. E a senhora disse-lhe, alto: Bill, lay down!
O Bill deitou-se, obediente, o olho desconfiado mirando as visitas.
Venâncio dirigiu-se delicadamente à senhora, comentando: Leidaune? Que bonito nome!

A mãe de um amigo meu, após enviuvar, dedicou-se obsessivamente a cães. Naquela tarde, teria lido um livro especializado e debitou-nos as classificações dos cães quanto ao pelo. Cães de pelo curto e de pelo comprido, de pelo crespo e de pelo macio, e continuava por aí fora. Aproveitando uma pausa para respirar, outro amigo, entrou no jogo: cães de pelo sim pelo não, vou andando até casa.
com um motor a 4 tempos, tinha um barulho cavo, em vez do agudo habitual
Segundo creio, os motores a 4 tempos são sobretudo muito menos poluentes (poluição do ar) do que os motores a 2 tempos. Ou seja, emitem substancialmente menos porcarias pelos tubos de escape.
Pelo menos o Venâncio, não sendo Doutor, era delicado – nada como o o outro vinheta, o Baptista, que gabava e apalpava o rabo da mulher à frente dos teens próprios e convidados.
Está visto que são as porcarias que fazem grande barulho…
Muito engraçado, o texto. Traz-me boas memórias. Todas as famílias têm alguém no seu círculo, propenso a asneiradas.
e nem toda a gente pode saber inglês!
Por isso é que agora o estado fica “liso”, até se “balda” a pagar rendas para o povinho ir todo p’ rás Universidades.
Não há um sapateiro, não há um latoeiro, não há um pedreiro,- daqui a nada não há quem lavre as terras -vai tudo ao fundo!