A maluqueira dos confinamentos por causa do pânico covidiano começou em Março de 2020 e durou pouco. Houve um outro confinamento entre Janeiro e Março de 2021, o asneirol repetido sempre dá uma certa confiança.
(Um dia, quando já cá não estiverem os magistrados da opinião que cavalgaram a onda histérica, os médicos que em nome da “ciência” a avalizaram, e as populações que, cá e em toda a parte, reclamaram medidas como as reclamariam os bois se conhecessem alternativa ao estouro da boiada; far-se-á a história do delírio colectivo).
Podia-se andar de carro se com uma declaração assinada pela gerência da empresa a garantir a necessidade da deslocação (eu tinha duas, por via das dúvidas, e serviram bem porque fui mandado parar) e passear os cães, a pé, para que os pobres animais não fizessem as necessidades dentro de casa.
Tendo sido sempre um negacionista (não da doença, antes da dimensão da sua perigosidade real e da razoabilidade das medidas para a combater) conduzi a minha vida com normalidade, fazendo o que sempre fiz habitualmente por haver quem, graças a Deus, furasse os ucases dos fascistas sanitários.
Foi por essa ocasião que comecei a passear o Cacau, utilizando a ciclovia que havia sido construída em 2018 e que passa perto da minha casa. Vai ela pelo leito do antigo caminho de ferro que foi criminosamente desactivado, aqui como em numerosos sítios no país – os comunistas têm razão neste particular, que Nosso Senhor os abençoe que eu não posso, ainda que a solução talvez fosse a concessão da exploração de certas linhas e não o enterro de fundos na CP.
A certo ponto, a 3 km, havia um café. Que jeitão, tinha esplanada e cadeiras, não lembro se servia alguma coisa pela porta do cavalo.
O café, o passeio dos 6 km, passaram a ser, até hoje, o ritual quase diário do Cacau e meu. Na pista quase nunca há movimento que se veja, salvo aos fins de semana se o tempo estiver bom, conheço de vista os poucos frequentadores habituais e aquilo de modo nenhum cumpre o que se disse nos discursos de inauguração, que é a mesma patetice que se diz sempre que se torram milhões nestes equipamentos de luxo – vão tirar carros da cidade. Passa lá um carteiro de bicicleta, é verdade, no resto das bicicletas vai o pai de família ou o jovem desportista, ambos vestidos como se para a Volta.
Há um corte em certo ponto, para passar uma estrada. E foi aí que uma bicicleta me ultrapassou, tendo-me dado conta que era daquelas (há cada vez mais) em que o ciclista pedala quase nada e elas vão com um gás que só visto – são eléctricas. Apercebi-me que ia com o ferro do descanso aberto, e por isso gritei e o ciclista parou. Disse-lhe o que era e ele corrigiu. Nesse momento olhou para mim para agradecer e reconhecemo-nos: era o Ventinhas, que não via há séculos.
E disse-lhe: Com que então também és desses desportistas que julgam que fazem exercício em cima de bicicletas enquanto quem puxa é o motor, ao que ele retorquiu: Não posso, tenho aqui um problema nas ancas, não dá para fazer esforço.
Estamos velhos, declarei, acrescentando: No teu caso nunca tiveste uma boa cabeça, agora são também as ancas.
Sorriu, era o género de coisa que lhe podia ter dito, e decerto disse, quando ambos éramos jovens.
Sempre uma excelente pessoa, o Ventinhas. Eu nem por isso.

(Ouve-se um suspiro canino, profundo e cansado. Cacau senta-se na ecopista, coça a orelha esquerda com a pata traseira, olha para o dono a afastar-se e pensa.)
“Se eu fosse um daqueles rafeiros das fábulas do La Fontaine, era suposto sacar daqui uma moral elevadíssima sobre a condição humana. Mas como sou o Cacau, com um dono que se acha o último herói da ‘resistência anti-covid’, a única moral que tiro é que a velhice não perdoa.
E digo mais. A única razão para eu não cravar os dentes neste revolucionário de pantufas é porque, se não for eu a puxá-lo pela trela e a obrigá-lo a caminhar seis quilómetros, ele já tinha morrido de asfixia. E não, não era de covid. Era engasgado pelos próprios ucases.”
O prato do dia está bem avinagrado, hoje!
Então o segundo parágrafo parece daquele “de vinho branco”, que vinha numa espécie de almotolia de plástico transparente cujo bico tinha que se cortar para servir o néctar – côr de chichi, e que se caísse em cima de mármore até fazia fumo…
“A maluqueira dos confinamentos por causa do pânico covidiano começou em Março de 2020 e durou pouco. Houve um outro confinamento entre Janeiro e Março de 2021, o asneirol repetido sempre dá uma certa confiança.”
Houve pior, muito pior, quando os Confinadores das Redacções e não só nos disseram que já não se era problema juntarem-se todos no 1 de Maio do PC e se fossem a protestos pela morte do George Floyd.
Aliás a farsa ficou bem exposta quando os governos não favoreceram o transporte individual.