Chegou a ser o homem mais influente dos Estados Unidos – não pode haver mais invejável título de glória para um jornalista. E Walter Cronkite era um jornalista a cem por cento. Fez de tudo na profissão, esteve em todos os momentos decisivos da história que lhe coube em sorte testemunhar. Foi repórter na II Guerra Mundial, acompanhou o Dia D, cobriu os julgamentos de Nuremberga, chefiou a delegação da CBS em Moscovo no tempo da Guerra Fria, regressou à reportagem de guerra no Vietname, relatou a histórica emissão da conquista da Lua há exactamente 40 anos, acompanhou de perto o caso Watergate. Foi o grande responsável pela progressiva, constante e regular subida de audiências da CBS, que no final da década de 60 se tornou no canal televisivo com mais espectadores nos Estados Unidos devido a uma palavra-chave: credibilidade.
De facto, entre todos os atributos que revelou, talvez o maior fosse este: Cronkite era credível. O termo anchorman, hoje tão popularizado, foi criado para ele, graças ao seu brilhante desempenho na cobertura jornalística das convenções democrata e republicana de 1952 – as primeiras integralmente acompanhadas pelas câmaras televisivas. Em 1962, tornou-se o pivô do principal telediário norte-americano, o CBS Evening News: abandonou estas funções quando completou 65 anos, em Novembro de 1981 – e viria mais tarde a confessar ter sido este o maior erro da sua vida profissional. Tinha fôlego, energia e vontade para muitos anos mais defronte do ecrã.
Na memória de muitos estão ainda as severas críticas que fez ao envolvimento de Washington no Vietname: foi lá como repórter, em 1967, e o que viu convenceu-o de que os americanos estavam a travar a guerra errada no local errado. Não hesitou em dizer o que pensava perante o seu auditório de dezenas de milhões de espectadores. Ao escutá-lo, o então presidente Lyndon Johnson comentou perante os seus assessores: “Acabamos de perder o apoio da América profunda.” Meses depois, em Março de 1968, Johnson desistiria da recandidatura à Casa Branca: ninguém teve dúvidas de que as críticas de Cronkite tiveram um papel fundamental nesta decisão.
A única vez em que esteve quase a perder a voz, embargada pela comoção, foi ao princípio da tarde de 22 de Novembro de 1963, ao conduzir a emissão especial da CBS sobre o atentado ao presidente John Fitzgerald Kennedy. Viveram-se minutos de incerteza, enquanto o inquilino da Casa Branca, alvejado em Dallas, era conduzido de urgência ao hospital. Quando o óbito se confirmou, coube a Cronkite revelar aos atónitos americanos a notícia em que ninguém queria acreditar: fê-lo com o profissionalismo e o rigor de sempre. Mas também com aquela nota de genuína emoção que nunca está arredada do melhor jornalismo.
Walter Leland Cronkite tornou-se, ainda em actividade, uma lenda viva do jornalismo. Acaba de morrer, aos 92 anos. Mas continuará a ser uma figura modelar para todos os profissionais da informação, nos mais diversos quadrantes. Como referência de credibilidade, o maior dos atributos que um jornalista pode ter.


Ele teria gostado de ler este teu texto.
Senti o impulso de o escrever, mal soube a notícia. Cronkite era um dos meus heróis. Felizmente ainda há heróis (embora cada vez menos).
Os herois sempre irao existir! Basta acreditarem fielmente na sua capacidade em trazer, com todo o seu saber, algo de novo à Sociedade.
Precisamos urgentemente deles!
Penso o mesmo. Precisamos de figuras modelares. E não precisamos de ouvir gente à nossa volta a gritar que não existem heróis. Cansei-me de ouvir isso. Não dou para esse peditório.
Também acho que haverá sempre heróis, porque haverá sempre quem se distinga da maioria e abra caminhos novos. E ainda bem.
Bela homenagem a um herói de uma profissão muito nobre, nem sempre honrada por quem a pratica.
Registo a sintonia, Ana. Uma vez mais.
Uma lenda viva do jornalismo e uma excelente homenagem.
Um abraço, Mike.
Bela homenagem, compadre. Bem merecida por Cronkite e merecida por cada vez menos figuras do nosso tempo.
Penso o mesmo, compadre. Infelizmente é verdade.