Ainda a propósito das declarações de Saramago sobre a Bíblia e sobre a coincidência de as ter lido no preciso momento em que segurava no Wise Blood, de que falei no meu anterior post, gostava de voltar à ideia de Saramago como alguém que certifica, no seu afã negacionista, a existência de Deus. E volto com palavras da própria autora, a propósito do romance, que me parecem oportunas (destaques meus):
"It is a comic novel about a Christian malgré lui, and as such, very serious, for all comic novels that are any good must be about matters of life and death. Wise Blood was written by an author congenitally innocent of theory, but one with certain preoccupations. That belief in Christ is to some a matter of life and death has been a stumbling block for readers who would prefer to think it a matter of no great consequence. For them Hazel Motes’ integrity lies in his trying with such vigor to get rid of the ragged figure who moves from tree to tree in the back of his mind. For the author, Hazel’s integrity lies in his not being able to."
E se volto a este assunto, não o faço por Saramago, por quem não me interesso muito, nem pela minha fé, que existe e resiste. Mas porque Flannery O’ Connor é a minha escritora de eleição e este é apenas um pretexto para a trazer até aqui, pese o desconforto que sinto de cada vez que escrevo sobre outra coisa que não política.

Respeito a sua posição, como não poderia deixar de ser mas não deixa de me espantar que pessoas intelectualmente rigorosas, quando os temas em discussão se fundam no clube ou na religião, perderem de súbito toda a compostura dialéctica que aplicam quando analisam outros fenómenos. Mais me espanta que, numa azáfama um pouco insana, quiçá porque nas sociedades desenvolvidas a ideia de deus tenha vindo a perder terreno, se afadigam a encontrar nas entrelinhas dos ateus ideias de crença teísta, talvez na esperança caridosa de que não vamos parar ao inferno.
Asseguro-lhe que viver sem deuses é bem mais fácil do que viver sem pão.
Caro Paulo,
Por mais que tente, não consigo encontrar falta de compostura dialéctica neste meu post. Mas respeito a sua opinião, ainda que não consiga igualmente perceber a relação antagónica entre a fé em Deus e a necessidade de comer.
Um abraço
Caro Adolfo, a sua fé existe e resiste?
Talvez este curto vídeo lhe cause um abalo. (http://video.google.com/videoplay?docid=-2282183016528882906#)
A minha fé existe e resiste, de facto.
O livro, com todo este mediatismo vai ser um best seller mesmo para aqueles que nunca leram Saramago e aposto que era isto mesmo o pretendido. 🙂
Isso seria fazer de mim um pequeno Saramago, inventando boutades para poder vender mais livros 🙂