Zulmira


Marta Caires,

A Zulmira – vou chamá-la assim porque acho graça ao nome – é minha colega aqui no serviço, pessoa muito educada, que gosta de hotéis de cinco estrelas e spas. Uma mulher do nosso tempo, profissional e mãe, que, ao olhar para a história do Sócrates e do ‘Freeport’ ficou escandalizada. Não tem dúvidas que ali há marosca, cunhas e favorecimentos de tios e primos, luvas e facilidades. Nisto, a nossa Zulmira não tem diferença do povo, do cidadão, do comum dos portugueses. A história -mesmo sem arguidos e acusações formadas – está decidida contra o primeiro-ministro, ainda que Sócrates se enfureça no Parlamento e, indignado, se desdobre em explicações e comunicados.

Eu, por mim, não sei, ando cautelosa com as sentenças. Estes casos, estas novelas de investigações, esta Justiça de televisão, com imagens repetidas, as bandeirinhas do ‘out-let’ a esvoaçar, a malta de tocaia à porta do tio e do Smith. Já vi isto tantas vezes, o Apito Dourado, a Casa Pia e a Maddie. Quem não se lembra da compaixão pelos pais que acabou em dúvidas cruéis, os cães a encontrar sangue e nós transformados em impiedosos espectadores, indiferentes à comoção dos dois médicos ingleses. É. Não sei o que pensar da culpa, mas a Zulmira sabe, tem uma certeza que sibila no tom de voz, sobretudo quando fala do tio, dos primos do primeiro-ministro.

Cheira-lhe a esturro, há de certeza um nó solto de favorecimento e tráfico de influências. E a Zulmira diz tudo isto, enquanto levanta o auscultador e marca um número. Quer uma consulta rápida para o especialista, a cunhada está doente, pede também para o padrinho que é pessoa a quem deve muitos favores. O doutor não os podia ver e passar à frente dos velhinhos que esperam pela consulta há três meses? Ficava-lhe agradecida, sim, sim, muito agradecida e disponível para o que fosse preciso. O ‘Freeport’ regressa à televisão, mais bandeirinhas e, com um olhar reprovador, Zulmira abana a cabeça, ali há cunha.

6 comentários em “Zulmira”

  1. Os exemplos há muito proporcionados pela classe política favorecem que as Zulmiras, mesmo as que não são clientes de hotéis de 5 estrelas e de spas, procedam assim.

    Portugal tornou-se numa terra do salve-se quem puder.

  2. Marta,
    Como sabe a investigação sobre este caso em Portugal teve o mesmo destino dos que enunciou, a questão é que os Ingleses não brincam em serviço, para além do dinheiro que procuram ter “encalhado” em Sócrates, o caso Maddie, está-lhes atravessado na garganta e com isso Sócrates não contava, nem a nossa justiça.Se não fosse isso, tudo bem em “Abrantes”….
    Mas quem elege F.Felgueiras, Isaltinos,V.Loureiros, entre outros, só pode ter um PM na mesma linha, portanto de que nos queixamos afinal?

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *